Saturday, May 31, 2008

vijnanabhairava (lado b, primeira faixa)


Também tentei a partir da versão «aumentada» de Odier uma tradução do vijnanabhairava tantra - se o «acrescento» é legitimo ou não não o irei discutir (inclino-me para que seja algo mais tardio) - traduzo aqui apenas um pedaço dos textos.




Bhaïrava et Bhaïravi, amorosamente unidos no mesmo conhecimento, sairam do indiferenciado para que o seu diálogo ilumine os seres.


1. Bhaïravi, a Shakti de Bhaïrava diz:
Ò Senhor, tu que manifestas o universo e que desfrutas dessa manifestação, tu não és mais que este Si. Sim, recebi o ensinamento do Trika que é o suprassumo de todos livros sagrados, mas no entanto mantêm-se algumas dúvidas.
2-4. Senhor, do ponto de vista da realidade absoluta, qual é a naturesa essencial de Bhairava? Será que ela habita na energia associada aos fonemas? Na realização da natureza essencial ligada a Bhairava? Num mantra particular? Nas três Shaktis? Na presença do vivo mantra de cada palavra? No poder do mantra presente em cada particula do universo? Será que reside em cada Chakra? Ou é somente a Shakti?
5-6. O que é composto vem da energia imanente e transcendente ou provém apenas da energia imanente? Se o que é composto só surge da energia transcendente, a própria transcendencia não terá consequentemente objecto algum. A transcendencia não pode ser diferenciada em sons e em particulas, uma vez que a sua natureza indivisa não lhe premite encontrar-se no múltiplo.
7-10. Ò Senhor, que a tua graça suprima as minhas dúvidas.
Perfeito! Perfeito! As tuas questões, ò Adorada, formam a quintessencia dos Tantra. Eu vou expor-te um saber secreto. Tudo o que é composto a partir da esfera de Bhairava deve ser considerado uma fantasmagoria, uma ilusão mágica, uma cidade fantasma suspensa no céu. Uma tal descrição serve apenas para empurrar aqueles que andam à cata da ilusão e das actividades mundanas voltando-os para a contemplação. Tais ensinamentos estão destinados aqueles que se interessam pelos ritos e práticas exteriores e que estão submetidos ao pensamento dualisante.
11-13. Do ponto de vista absoluto, Bhairava não está associado nem às letras, nem aos fonemas, nem às três Shaktis, nem à penetração dos chakras, nem a outras crenças, e a Shakti não compõe a sua essência. Todos estes conceitos expostos nas escrituras são feitos para aqueles cujo espirito está demasiado imaturo para agarrar a realidade suprema. Eles não passam de aperitivos que se destinam a incitar os aspirantes a um modus vivendi correcto e a uma pratica espiritual de modo a que um dia eles possam tomar consciencia que a natureza derradeira de Bhairavi é inseparada do seu Si.
14-17. O extase mistico não é subito do pensamento dualisante, mas está totalmente liberto das noções de lugar, de espaço e de tempo. Esta verdade não é tangível pela experiência. Só é alcançável quando libertos totalmente da dualidade, do ego, e quando permanecemos firmamente na plenitude da consciência do Si. Este estado de Bhairava é repleto da pura felicidade na não-diferença do adepto tantrico do universo – ele é a Shakti. Na realidade da sua natureza assim reconhecida e contendo o inteiro universo toca-se a mais alta esfera. Quem pode assim ser adorado? Quem pode ser agraciado por essa adoração? Só essa condição de Bhairava reconhecida como suprema é a grande Deusa.
18-19. Como não há diferença entre a Shakti e o que a possui, nem entre substancia e objecto, a Shakti é o Si. A energia das chamas é o fogo. Toda a distinção é um mero preludio ao caminho do autentico conhecimento.
20-21. Aquele que acede à Shakti apanha a indistinção de Shiva e Shakti e transpõe a porta de acesso ao divino. Tal como se conhece o espaço graças à luz dos raios de sol, assim se reconhece Shiva graças à energia de Shakti que é o amago do Si.
22-23. Ò Senhor supremo! Tu que levas um tridente e um colar de cranios, como é que alcançamos a plenitude absoluta de Shakti que ultrapassa toda a noção e toda a descrição, absorvendo o tempo e o espaço? Como se passa a esta não dualidade com o mundo? Em que sentido se pode dizer que a Suprema Shakti é a secreta porta do estado de Bhairava? És capaz de responder em linguagem acessivel a estas questões absolutas?



24. A suprema Shakti manifesta-se quando o sopro inspirado e o sopro expirado se extinguem noas duas zonas situadas no alto e no baixo. Assim, entre as duas respirações experimenta o espaço ilimitado.
25. Através do movimento e da suspensão da respiração, entre a inspiração e a expiração, quando esta se imobiliza nas duas extremidades, coração interno e coração externo, dois espaços vazios te serão revelados: Bhairava e Bhairavi.
26. Estando o corpo relaxado no momento da expiração e da inspiração, com o pensamento dualizante dissolvendo-se, atenta ao coração, centro de energia onde flui a absoluta essencia do estado bhairaviano.
27. Quando inspiraste e expiraste totalmente o movimento cessa por si só: nessa pausa universal e socego a noção a noção do «mim» desaparece revelando-se a Shakti.
28. Considera a Shakti como uma viva luminosidade, progressivamente mais subtil, levada de centro a centro, de baixo para cima, através do caule do Lótus. Quando no centro superior se apazigua dá-se o despertar de Bhairava.

29. O coração abre-se e, de centro em centro, a Kundalini lança-se como um raio. Então Bhairava mostra o seu esplendor.
30. Medita sobre os doze centros energia, reunindo as doze letras, e liberta-te da materialidade para alcançar a suprema suprema subtilidade de Shiva.
31. Concentra a atenção entre as duas sobrancelhas, conserva o teu espirito livre de todo o pensamento dualizante, deixa que a tua forma se encha com a essencioa da respiração até ao topo da cabeça e aí banha-te numa luminosa espacialidade.
32. Imagina os cinco circulos coloridos de uma pena de pavão como sendo os cinco sentidos disseminados no espaço ilimitado e habita a espacialidade do teu próprio coração.
33. Vazio, muro, qualquer que seja o assunto da contemplação, ele é a matriz da espacialidade do teu espirito.
34. Fecha os olhos, vê o espaço inteiro como se fosse absorvido pela tua cabeça, dirige o olhar para o interior e aí vê a espacialidade da tua autentica natureza.
35. O canal central é a Deusa, tal qual um caule de lotus, por dentro vermelho, por fora azul. Ele atravessa o teu corpo. Meditanto sobre a sua interna vacuidade acederás à espacialidade divina.
36. Tapa as sete aberturas da cabeça com tuas mãos e funde-te no bindu, espaço sem fim, entre as sobrancelhas.

SPANDAKARIKA


Esta versão baseia-se sobretudo na «tradução» de Odier. Não tem as tentações teístas das traduções (por exemplo) de Lilian Silburn e parece-me clara quanto ao essencial... embora eu tenha algumas reticências quanto ao «personagem» Odier... mas também tenho quanto a mim mesmo...



1. A venerada Shankari (Shakti), fonte de energia, abre os olhos e o universo reabsorve-se em pura consciencia; ela fecha-os e o universo torna-se nela manifesto.

2. A vib-ratio (spanda), o efectivo lugar da criação e do retorno (metacatástrofe), é desprovido de qualquer limite uma vez que a sua natureza é destituída de forma.

3. Mesmo dentro da dualidade o tantrika mergulha na fonte não-dual visto que a pura subjectividade permanece sempre submersa na sua própria natureza.

4. Todas as noções relativas ligadas ao ego reencontram a sua calma origem profundamente infiltrada sob os multiplos estratos.

5. Num sentido absoluto, prazer e sofrimento, sujeito e objecto não são em nada distintos do espaço da consciencia profunda.

6/7. Agarrar essa evidencia essencial é vislumbrar a ubiquidade da liberdade absoluta. Deste modo o movimento dos sentidos habita nessa liberdade nuclear e alastra a partir dela.

8. Aquele que encontra essa vib-ratio substancial escapa ao obscurecimento do desejo limitado.

9. Liberto da multiplicidade dos impulsos ligados ao ego faz a experiência do samadhi.

10. Torna-se evidente que a qualidade do tantrika é a liberdade de ser através da qual o desejo reencontra a sua universalidade.

11. Como é possivel um tantrika continuar sujeito à transmigração quando a sua natureza está na origem de tudo o que se vai manifestando?

12. Se o vazio pudesse ser um objecto de contemplação onde estaria a consciencia que o apreenderia?

13. Considera deste modo a contemplação da vacuídade como um artifício de natureza analoga à de uma radical ausência do mundo.

14/15/16. Aquele que age e a acção estão unidos mas quando a acção se dissolve através do abandono dos frutos da acção, a dinamica ligada ao ego esgota-se e o tantrika que se absorve nessa contemplação profunda descobre a vib-ratio liberta das ligaduras do ego. A natureza essencial da acção é então revelada e aquele que interiorizou o movimento do desejo livra-se da dissolução. Ele não deixa de existir uma vez que regressou à origem.

17. O tantrika desperto realiza essa vib-ratio permanente através dos 3 estados.

18. Shiva fica então em união amorosa com Shakti sob a forma do conhecimento e do seu objecto enquanto simultaneamente se manifesta como nua consciencia.

19. Toda a paleta sonora dos diferentes tipos de vib-razões tem a sua origem na vib-ratio universal da consciencia e assim chega a cada ser. Como é que tal vibração pode limitar o tantrika?

20. No entanto tais vibrações são a causa do declinio das criaturas que se limitam – quando a intuição se desconecta da origem as criaturas caíem no turbilhão da transmigração.

21. Aquele que com ardor se inclina para a vib-ratio palpa a sua clara natura no seio da actividade.

22. O vib-ratio é experimentado mesmo em estados extremos – na cólera, na intensa alegria, nas digressões da mente, no elan de sobrevivência.

23/24. Quando o tantrika se oferece como Shiva/Shakti o sol e a lua elevam-se no canal central (sushuma).

25. Nesse instante, o sol e a lua desaparecem no céu - o desperto mantem-se lúcido enquanto a criatura grosseira mergulha na inconsciencia.

26/27. Os mantra, quando carregados do poder da vib-ratio concretizam a sua função através dos sentidos do que despertou. Eles unem-se no espirito do tantrika no qual perspassa a natureza de Shiva/Shakti.

28/29. Todas as coisas emergem da imanencia do tantrika que se reconhece em Shiva-Shakti. Tudo o que desfruta é Shiva-Shakti. Não há nenhuma forma de estar nomeavel que não seja Shiva/Shakti.

30. Continuamente presente à experiência que ele entende como jogo da sua natureza, o tantrika é liberto entranhando-se na vida.

31. Pela intensidade do desejo sem objecto a contemplação emerge no coração do tantrika unido à vib-ratio.

32. Este é o modo de alcançar o nectar supremo, a imortalidade do samadhi que mostra ao tantrika a sua natureza nua.

33/34. O entusiasmo em Shiva/Shakti que manifesta/recolhe o mundo permite ao tantrika sentir-se completo. Durante o sonho o sol e a lua manifestam-se no seu peito e todo o desejo se satisfaz.

35. Mas se não se faz presente/imanente o tantrika será enganado pelas dramaturgias do que se manifesta e conhecerá o estado ilusório do aspirante através da vigilia e do sono.

36/37. Como um objecto que escapa à atenção é mais claramente compreendido quando nos esforçamos para o aprender de vários lados, assim a vib-ratio aparece ao tantrika quando se inclina para a vib-ratio com entusiasmo. Então tudo se põe de acordo com a sua natureza nua.

38. Mesmo num estado de extrema fraqueza tal tantrika alcança a realização. Mesmo faminto encontrará a comida.

39. Tendo como unico apoio o reconhecimento do peito o tantrika é omnisciente e em harmonia com o mundo.

40. Se o o corpo/espirito é devastado pela falta de coragem devida à ignorancia, só a expansão da consciencia fora de qualquer limite dissipará a lassidão cuja origem terá então desaparecido.

41. A revelação do Si surge naquele que nada mais é que o desejo absoluto. Que cada qual faça esta experiência.

42. Simultaneamente a luz, o som, a forma e o sabor vêm entravar aquele que ainda se agarra ao ego.

43. Quando o tantrika penetra todas as coisas com o seu desejo de absoluto, para que servem as palavras? É em si que se desfruta.

44. Quando o tantrika permanece atento, os sentidos disseminam-se na realidade com consciencia e experimentam a permanencia.

45. Aquele que se priva do seu poder através das obscuras forças da actividade limitada torna-se um joguete da energia sonora.

46. Apanhada no campo das energias subtis e das representações mentais a ambrosia dissolve-se e o ser esquece-se da sua liberdade inata.

47. O poder da palavra está sempre solicito a vendar a natureza nua do Si, pois nenhuma representação mental se consegue libertar da linguagem.

48. A energia da vib-ratio que atravessa o vulgo escraviza-o ao mesmo tempo que esta liberta o que se encontra na Via.

49/50. O corpo subtil é um entrave ligado à inteligência limitada e ao ego. A criatura submissa faz experiências que estão ligadas às suas crenças e à ideia que tem do seu corpo, e através desses mecanismos perpétua as amarras.

51. Mas quando o tantrika habita no vib-ratio ele liberta o fluxo da criação/retorno (catástrofe/anacatástrofe), goza da liberdade plena e é mestre das rodas das energias.

52. Eu venero a palavra espontanea, fremente e maravilhosa do meu mestre que me fez atravessar o Oceano da dúvida.

Que esta joia do conhecimento arraste todas as criaturas, como Vasugupta nos propoem, e as leve a agarrar a natureza das coisas que elas guardam intensamente no peito.












Thursday, March 13, 2008

SHIVA SUTRAS (versão A)





As traduções de que disponho dos shiva sutras puxam exageradamente a brasa à sua sardinha - eu iria tentar várias versões corrigindo «intuitivamente» cada uma - eis a primeira - leiam-na com fundas suspeitas!







Primeira secção

1. A consciencia é Ser
2. O saber é o que agrega (liga - )
3. A yoni são as fracções do tempo
4. As Matrikas são a base do conhecimento
5. O entusiasmo é o Bhairava
6. Na união do circulo das Shakyis dá-se a dissolução do mundo
7. O 4 (estado) desfruta-se e está contido nos estados de vigilia, sonho e sono profundo
8. O conhecimento é o estado de vigilia
9. A fantasia é o estado de sonho
10. A ausência de atenção é Ilusão, profundo sono
11. A tríade é devorada pelo Heróico
12. Surpresa-maravilhamento é a disposição do yoga
13. Iccha Shakti é Uma, a virgem
14. Tudo é o corpo
15. Quando o que agrega-observa-colide habita o coração a visão do sonho desvanece-se
16. Quanto estamos sensiveis à pura essência emerge a shakti sem dualidade
17. Deliberação-prudência é Ser-Sabedoria
18. O desfruto do mundo é o deleite do samadhi
19. No âmago da Shakti está a criação do corpo
20. A comum junção dos elementos é o mundo, a divisão desses elementos é colisão
21. Da aparência do puro saber surgem multiplas shaktis do senhor do circulo (das shaktis)
22. Concentrando-se no lago de energia femenina obtem-se o vivo mantra







Segunda secção

1. A consciência é mantra
2. O esforço é o método
3. A ciência-corpo-presença é o segredo do mantra
4. No estado embrionário da consciência expande-se a ciência menor do estado de sonho
5. No surgimento do dom de visão, espontaneamente, podemos mover-nos no vácuo, como Shiva
6. Pela graça do guru
7. O saber desperto é o circulo das letras do silabário
8. O corpo é a oferenda
9. O saber o que nutre
10. Da acumulação de saber emerge como percepção do estado de sonho






Terceira secção

1. A consciência é o atman
2. O saber o que encadeia
3. Dos kalas (estados da transformação) surge o que não descrimina, Maya
4. No corpo dissolvem-se os kalas
5. A dissolução pelos nadis é o triunfo sobre os elementos, a liberdade a partir dos elementos, a dispersão dos elementos
6. A sede de poderes provem da aparência da desilusão
7. A vitória sobre a desilusão é a vitória do saber espontaneo, de interminável extensão
8. Do desperto o mundo é um raio
9. A dança é o Si
10. O Si profundo é o palco
11. Os orgãos dos sentidos são os espectadores
12. O entendimento é puro poder
13. A libertação é a transformação no in-dependente
14. Aí e em toda a parte
15. A atenção é a semente
16. As posturas são a alegria do mergulho na Shakti (nas energias)
17. Os critérios de cada um adequam-se caso a caso, para que haja discernimento no caminho
18. O saber imperecível significa o fim das emergências
19. Maheshvari e outras fontes de criaturas estão em potência nas particulas sonoras
20. O quarto estado de consciência é o que oleia os restantes
21. Subergimo-nos pela entrega à consciência
22. O mesmo acontece com a distribuição equitativa do prana
23. No centro desperta o que vem do inferior
24. Na medida em que depositamos confiança no centro, assim se impede o retorno do inferior
25. Saboreamos a equatitividade em Shiva
26. O fluir do corpo torna-se um oficio sagrado
27. O falar devem liturgia
28. O conhecer-se é oferecer
29. Quem se mantem neste estado é o âmago do saber
30. O universo expande-se como agregações das suas shaktis
31. Estabilidade e dissolução
32. Apesar desses fluxos o conhecer mantem-se firme
33. Prazer-dor acontecem como alheios
34. Livrando-se delas é-se espontaneo
35. Essa lógica kármica acumula decepções
36. Livrando-se do que separa, a creatividade impõe-se
37. As Shaktis creativas surgem da autonomia
38. O que precede os 3 estados vitaliza-os
39. A consciência é estável no corpo, nos sentidos e no mundo
40. Há porem uma ultimação de levar este estado para fora
41. Mas com a concventração a anseadade desaparece, assim como a individualidade
42. Ainda que revestido pelos elementos ele é completamente livre e soberano
43. A regulação do prana e seus bandhas é espontanea
44. Centrando através da respiração entre as sobrancelhas?O ida, o pingala no sushuma.
45. Renovadamente mergulhando

Sunday, September 16, 2007

O LIVRO CINZENTO DE ZINGDONG








1. Não é uma criatura, mas algo malcriado.

2. Tem nomes a mais para uma forma de desistência.

3. Nomes que indicam como se indefenissem

4. Algo que rasteja nas palavras mas que prefere ficar aquém destas.

5. As palavras curtas tornam as jogadas mais rápidas.

6. Agarra as transições e os buracos negros entre as palavras e os silêncios.

7. Exprimir exactamente o que não nos apetecia exprimir.

8. Os conhecimentos pequenos esgueiram-se para debaixo dos grandes aproveitando-se maliciosamente das suas sombras.

9. Os argumentos éticos propiciam crimes oficiais.

10. O ego, assim como o que nos distingue dos demais, não pretende confundir-se com a vulgaridade da verdade. O que é mais nosso é uma fibrosa variação.

11. Recusa participar em equipas que não te singularizem. A tua singularidade é muitas vezes supremamente indistinta.

12. Entrar num estado entre a forma perfeita e cabotina e a moleza do informe.

13. Alcançar o que se quer formar no informe e o que não informa nas formas.

14. Uma aliança contra as semelhanças.

15. Não te podes comparar a nenhuma maneira, mas também não pedes para ser original.

16. Dissimulas, mas não tens nenhum segredo no buxo. É uma estratégia vital?

17. A natureza é mais estratégica do que essencial.

18. Uma falta de talento para a manipulção e algum faro para agarrar a ocasião.

19. A sensibilidade é, ao fim e ao cabo, a luxúria numa versão mais admissível.

20. O amor da sabedoria pode levar a overdoses liturgicas.



21. Porque é que treinas as tuas orelhas se acabas sempre por ser frito pela piedade?

22. Ter razão é engordar a presunção. A presunção dá-nos a possibilidade de chegar à condição de presunto.

23. As pessoas gostam de cortar fatias de prazer aos outros.

24. A musicalidade é pouco mais do que o talento combinatório armadilhado de sons: a especialidade canalha de dar milho aos melómanos.

25. O amor da sabedoria faz do sábio um actor enervante que ficaria melhor pendurado num talho.

26. O amor do conhecimento conduz à busca de facas e ao adiamento das fezes.

27. A confusão é o mundo mesmo quando este cai em si mesmo.

28. Os homens desonram o prazer repetidamente porque encontram um prazer mais fácil nos remorsos.

29. Que o jejum afaste das nossas unhas a unidade.

30. Quando te retiras da unidade, sobretudo a mais negramente interior, o que vem ter contigo é delicioso.

31. Mordiscas os opostos em todas as dentadas.

32. Os jogos de palavras fazem com que as palavras já não nos apanhem

33. As afirmações e negações convergem nas suas divergências e divergem nas suas convergências.

34. As coisas obscurecem naquilo que as ilumina.

35. A desordem é uma variante da variação tentacular que nos sedimenta.

36. As capacidades estão-se nas tintas para os erros de onde nasceram.

37. Pensamos para simular independência.

38. Gostamos de pendurar limpas semelhanças ao lado de porcas diferenças.

39. A recusa não é apenas uma a aceitação irónica, mas uma partida iconoclasta.

40. O funeral do sábio enterra a sua sabedoria.

41. A inação camufla-se de acção.

42. Determinadas habilidades transformam-nos em algo misterioso e ligeiro.

43. Não estudamos, mas farejamos. A sabedoria vem ter connosco como uma presa fácil. Chupamos-lhe o tutano em menos de um fósforo.

44. A sabedoria afina-se na sua refutação. A sabedoria refina-se na masturbação.

45. O acaso atrai muitas necessidades mas não se contenta com nenhuma.

46. Garantimos uma quietude com muito movimento. É a imobilidade que transforma a transformação?

47. A alegria é preferível à beatitude. Um sábio triste ou mais-ou-menos apático destila sabedoria de merda, por mais limpa que esta seja.

48. Não preciso de seguir um método porque são os métodos que me seguem.

49. Vejo as distinções como distrações. Ás vezes chegam a ser prometedoras.

50. Os pensamentos exercitam-se pelo prazer de se exercitarem. O que faz parte dos atributos irónicos do corpo.




51. A sesta afina o conhecimento das transições.

52. O grande vácuo, ou o supremo vazio é como um grande peido. Com todo o respeito! Mas na demiurgia sobram caganitas estelares e planetárias.

53. O mundo auto-organiza-se sem directivas superiores. É na identificação com esse vácuo peidológico que se dá o extase.

54. Limitado e ilimitado são casos extremos do entreaberto.

55. Há uma pretensão em não deixar pistas ou obras semelhante à do egocentrico Ling Chung polindo as suas odes. O tempo, o grande tempo, apagará todos os traços. Somos, mesmo mortos e desconhecidos, tremendamente interactivos.

56. É complexo, com demasiadas e contraditórias defenições.

57. Há quem procure a boa ou a má reputação. Mas a aparência não interessa, só a simpatia.

58. Amizade carismática. O carisma dos chefes é como as perucas.

59. Serás um dia autodestruído. Então já não será tarde.

60. A disciplina do desforço torna os esforços talentos ligeiros. Não te esforces para seres desforçado.

61. Longevidade é criatividade e curiosidade.

62. Não há um momento certo para parar. Nada fica acabado. A acção mantém-se no inacabado. Há recomeços que continuam os inacabamentos com outros inacabamentos.

63. Felizes interactores de multiplas acções que se cruzam.

64. A felicidade não nos encontra se a ficarmos aguardando ou se a procurarmos. É a treta de sempre. Acabamos por encontrá-la por acaso.

65. O que deve ser feito é o que não deve ser feito, sobretudo quando parece que é para ser feito.

66. O indeterminado como determinante provoca gargalhadas. Os produtos da pura indeterminação provocam bocejos.

67. Concretiza através do não-fazer, mesmo que isso tenhas que fazer alguma coisa.

68. Toda a perfeição é uma imperfeição amputada e simplificada.

69. Torna as proezas banais, quase imperceptíveis.

70. Se a arte for superflua o mundo fica equilibrado.

71. Vida fácil, morte retardada.

72. Mentes livre, pensamentos lubrificados.

73. A desonra torna os homens mais nobres mas as suas vidas mais marginais.

74. As virtudes são estereis, mas se forem bem diversificadas, fazem um excelente cozido.

75. Sinto uma certa nausea quando vejo a sabedoria a procurar atingir objectivos.

Friday, September 14, 2007

Livro das Ambulatórias Atribulações Atributivas












(1) A ciência está no número dos bens arrepiantes. Uma ciência é melhor que outra nem que seja só para fazer inveja.

(2) A ciência que trata da excitabilidade e do acalmamento é um panejamento mais fecundo dos afectos brutos e abruptos que se procuram polir em desenvolta arte.

(3) O conhecimento é um propósito da alma, de inquestionável utilidade para os arremessos retóricos e para a encenação de complexas autenticidades.

(4) A alma é a animalidade, o acto movente que dá caça a todos os aspectos e principios morredoros ou supostamente eternos.

(5) Diversos são os principios que dão trela a outros contentamentos e arreliamentos.

(6) O animal que na sua singularidade se universaliza quer-se um pouco de tudo e em um tudo um excelso nada. Ele é o que é, nem anterior nem posterior a qualquer natureza, mas algo que se entrega à devorante oferta do mundo. Ele é a atenção às desenvoltas intenções que no mundano ar se confutam.

(7) A acidentalidade forja os modos como encaramos os quês das coisas, quer através do que nelas lhes é acessório, quer nos afectos transicionais e nas circunstâncias com que damos de cara com elas.

(8) A forma exaltada com que atiramos com as nossas indagações levam as suspeitas sobre os quês a diversas pessoas, desembrulhando os assuntos em equilibradas defenições que se desejariam assombrosas.

(9) Em qualquer operação a que animadamente nos entregamos são indistintos os humores do corpo dos da alma, se bem que o corpo proceda como coordenado exército e alma goste de encenar as suas diletantes multiplicidades numa desejável diversificação, pois querer ser é procurar expandir-se nas singularizações das diversidades.

(10) As operações da alma querem-se limpidas nos seus procedimentos estilisticos e nas finalidades que desenrolam as intenções. É através de desejos precisos que o corpo as acolhe, e é numa ginástica coordenada entre os desejos da suposta alma e a exercitabilidade do corpo que se dá uma purificação essêncial para a persistência conjugal de ambos.

(11) O intelecto busca espaços nos quais se ancorar, tecendo e destecendo imagens. O espelho do intelecto é a florida imaginação. A intelecção pode ser a secagem das fontes, e como tal um espelho onde se reflectem fantasmas, imprecisões, neblusidades. Mas o intelecto rigoroso faz belos desenhos.

(12) As defenições procuram a excelência de um momento e a multiplicação das variantes, quer confirmativas, quer refutativas. O que é dado é o moldável, o philum, o que adere a esquemas e designios. Ou como dizia Antiphon o arrythmyon, a disponibilidade do não-esquematizado. Toda a esquematização está em potência, mas a potência não existe sem prática, sem «materialização». As formas engendram as formas, mas as formas que se contentam com a sua inércia só podem sonhar com a réplica.

(13) A naturalidade é a dupla interface entre as diversas reacções miméticas (simpatia, antipatia, paródia), as forças diagramáticas (e as sequências complexas que as geram) e o philum (o não-formatado aderente, a simpatia da matéria). A animação e a animalidade são a vertigem de uma demorada interacção. De certa forma, toda a geometria é um animal voraz.

(14) As explicações não são isentas nem de alegria nem de tristeza, por mais clássicas, engenhosas ou inexpressivas que pareçam. As explicações são geradas, têm um subsolo «patético», tendo sido tecidas num emaranhado de afectos.

(15) Os olhos do passado são predadores. Os renascimentos procuram vitímas em excitáveis rememoradores.




(...)

(44) As explicações são bestas formatadas por diagramas animados. O olhar caça o visível. A visão não é nem a afortunada desocultação (ocultante ou não) de uma natureza demasiado púdica nem uma pura e galhofeira aparência de uma literalidade irrepreênsível. A visão é uma selecção e uma caça, ou até mesmo uma intoxicação.

(45) O visivel distingue-se do ainda não visto menos como esgotamento de possibilidades e mais como uma encarnação personificadora, uma força metonímica que procura contagiar-se narrativamente noutras formas e visões. O caracter romanesco da realidade é a sua não-finalidade. A natureza do romance nega que o romanesco termine no livro. Cada livro é a sequela do que determinado livro deixou como propulsão metonímica. É menos a questão do aberto do que a do abrinte.

(46) Viver dissimula-se em vários modos: crescer, sentir, fingir, aperceber, criar, adorar, embriagar, ocultar, rir, chorar. É a inadaptação ao lugar que faz a intiligência. São as estratégias de simpatia ou de rejeição do lugar que determinam as nossas competências e incompetências.

(47) A alma incita o corpo quer à diferença quer à indeterminação. Põe-no a jogar em todas as posições – alerta-o para os contrataques e para os perigosos movimentos na rectaguarda.

(48) A animalidade é predominantemente voracidade, graça e toque.

(49) A alma gosta de se entregar aos espaços numa confutação amorosa – a intiligência é quase sempre uma intiligência de lugar e posição. Os seus méritos são miméticos e sequênciais.

(50) A alma usa uma série de personas para passar à acção: a deambulativa, a sentimentalona, a mimética e a intelectiva.

(51) Há nas plantas uma alma pública com erecções privadas.

(52) A conectividade entre todas as personas da alma é indispensável para aumentar as suas potências. Mesmo as zonas mais abstractas são corruptíveis. O intelecto só adquire um movimento perpétuo se se mover, sentir e establecer interfaces metamórficas com os espaços à disposição.

(53) Inclinamo-nos nos avatares da ciência, nas predações da alma – buscamos uma saúde mais exuberante para que seja transpirada pelo corpo.

(54) A acidentalidade é a vontade de actualização das essências. A criação de novos objectos encaminha transicionalmente a de determinadas essências. A natureza do canapé ou do sofá não é a mesma da cadeira, é uma gradação entre cadeira, cama e eventualmente outra coisa. A criação de novas espécies animais e vegetais supõe atributos acidentais que se tornam defenitivos. Será que se pode dizer o mesmo do mundo – entendê-lo como genérica acidentalidade é enunciar o que nele e na acidentalidade há de mais universal?



(55) Os actos das coisas são a sua inclinação substanciando-se.

(56) As capacidades são reconhecidas pela ingerência actuante. A função dos actos é actualizar os objectos nos objectos.

(57) A mais natural das operações é a de aprimoramento dos apetites, isto é, aumentar a exuberância das formas e entranhar-lhe uma apetência metamórfica – mantê-las numa tensão aberta para novas gestações, quer internas, quer externas. A ideia de perfeição é menos a de acabamento e mais a de processamento – work in progress. Espontaneidade que procura a divindade e a imortalidade nas extremidades do caduco.

(58) O corruptível é a desentificação e a acção desconcertada. A perca de identidade (mesmo sendo uma identidade multipla) de qualquer agente diminui as suas capacidades regeneradoras. Há agentes que sobrevivem perpetuando-se pela reprodutibilidade, por mais que sejam rápidamente corruptiveis. A reprodução no quase identico é a espécie.

(59) A ciência determina o seu rigor criando universais onde possa arrumar a confusão mundana.

(60) Os universais imprimem-se na alma como uma força diagramática que flutua com um determinado poder quer na enunciação do mundo quer na sua manipulação.

(61) A alma gostaria de ser mais autonoma nas suas andanças, mas o que a enriquece é a interface entre a sua autonomia volitiva e a vulnerabilidade perante as coisas e as ocasiões.

(62) A sensibilidade afina-se como progressão da sua combinatória interna e como digestão do acidental.

(63) Há uma sensibilidade genérica que é partilhável e comunicável e há uma sensibilidade mais particular e intransmissivel. A linguagem tenta traduzir o incomunicável das singularidades em termos de sensibilidade genérica.

(64) O sensibilidade genérica distribui-se em três pares modais: a elevação/rebaixamento, o repouso/movimento, a geometria/informe.

(65) Há nove sentidos: a vista, o ouvido, o odor, o tocar, o execrar, o sublimar, o sexuar, o provar, o regorgitar.

(66) A sensibilidade não se engana a si própria mas pode induzir a erros a sua intelecção e o modo de lidar com os seus problemas.

(67) A cor é a visibilidade inconstante, propriedade das complexidades da luz e da refracção do momento. A côr é o antegosto do paraíso.



(68) A luz é a substância que constitui todos os corpos. A tendencia da luz para a inércia é o obscurecimento. A luz continua a banhar tudo, mesmo na sua lentidão.

(69) Dois corpos não podem ocupar em simultaneo o mesmo lugar, mas podem cohabitar determinadas àreas.

(70) A iluminação não se produz de maneira sucessiva e no tempo, mas produz-se no momento.

(71) O obscurecimento é uma elisão da luz. As trevas estão grávidas de iluminações.

(72) A cor é a luz dividida, dispersa. As cores, na sua intensidade remetem para a intensidade da luz – quer na sua insuportável magnitude, quer no doce clamor com que a luz se dissimula nas ténebras.

(73) A sensibilidade procura a intensidade para saír fora de si. O sentido do fora não é enunciável nem inteligível – é o extase.

(74) O som é resultante da vib-ratio original, de um tremendo clamor genésico, cuja ressonancia e ecoamento parece despontar na vontade dos objectos e os animais persistirem em esfregar objectos sonoros com ou sem violência.

(75) O eco é um som que continua em diminuendo parte de outro som. Temos que pensar que o mundo é a variação em pianíssimo de sucessivos ecos, já de si variações de um chamamento temível que roça com o mundo – variações de variações em busca de novas variações.

(76) A voz é um som que se procurou desembaraçar de um corpo.

(77) A voz é o que se solta através do ar das nossas zonas vocais na garganta destilando um prazer que se compraz em jogos e inflexões musicais que procuram emocionar e através da emoção significar em outros.

(78) Nenhuma coisa consegue ser alheia às vozes, mesmo que seja surda.

(79) As línguas empurram os ecos que vegetam musicalmente no mundo para operações de significação particular ou para operações sentimentais. Toda a lingua é babel no seu enfase de particularizar, de preencher os requesitos e particularidades de espaços e momentos.

(80) O homem compraz-se em sentir imperfeitamente – muitos dos seus sentidos são inferiores aos de outros animais, mas não a forma como recicla e reelabora o que lhe é dado por esses sentidos.









(81) Há três variedades de causas: a causa esquemática, a causa estratégica e causa directa. A primeira actua sobre as determinações morfológicas, a segunda establece sequências de oportunidade, a terceira entra de rompante na matéria e é por isso a mais eristica de todas e a mais observável.

(82) A estratégia implica a duplicidade de procurar um fim em parte desejado, mas também a gestão do adiar esse fim, uma vez que a finalidade alcançada implica a morte da estratégia. A graça é a estratégia para além do fim – como o messianismo para além do messias.

(83) O ordem da fala alimenta-se da desordem das impressões que em seu redor flutuam. Por isso os mestres de retórica buscam locais ordenados para alicerçar os seus discursos improvisados.

(84) A alma vegeta nas suas apetências: consumidora, aumentativa, regenerativa e reprodutiva.

(85) As bocas dos animais são como famintas raízes que tentam devorar tudo que é apetecível ao olhar.

(86) A combustão das coisas dá-nos a ideia de que há um limite de combustiveis apesar da imagem do fogo nos proporcionar a ideia do infinito, como coisa que se alastra incontroladamente.

(87) A natureza coloca limites que procura transgredir. O ilimitado não existe senão como hipótese de alastramento dos limites.

(88) A assimilação digestiva apropria o dissemelhente que dilui as suas qualidades nas qualidades do devorador. A predação tem a sua justificação morfológica – toda a forma quer engulir outras formas.

(89) A sobrevivência depende da manducação e da assimilação de multiplas dissemelhanças.

(90) Tudo se gera de si-mesmo contra si-mesmo, conservando-se graças ao nada.










(91) À partida, o predador e a presa são dissimilares, no fim são semelhantes.

(92) As criaturas tentam exacerbar a sua potência marcando o espaço e devorando outras formas, ou pelo contrário, deixam-se devorar de forma a pertencerem de um modo mais completo à matéria. A potência exerce-se quer como poder dentro de um espaço circunscrito, quer como exibição para outros espaços que não controla.

(98) Homem é o mais excentrico entre todas a bestas.

(99) São mais expeditas as criaturas cujos corpos são elásticos.

(100) Sem humidade e humildade nada pode ser provado. Toda a prova implica humilhação.

(101) Tocamos nos outros corpos como se uma ligeira palpitação lhes proporcionasse um incendio neurológico. A pele e a carne parecem dispositivos elétricos em que cada ponto contagia o resto do corpo.

(102) Os conceitos tentam fazer passar por palavras determinados estados de sensibilidade extrema, secando-lhes as ambiguidades.

(103) Qualquer sentido é a receptividade a cadeias ambulatórias de outros sentidos que se dão quer como combinados clichés verbais quer como dados projectados de imprecisas experiências.

(104) Uma sensibilidade forte corrompe os sentidos mais fraudulentos.

(105) Os sentidos engendram-se nas pregas da imaginação.

(106) O motor que faz mover o mundo é nú.

(107) O sentido comum é o sentido partilhável e esquematizável que permite as incontornáveis variações dos sentidos pessoais – o sentido comum é ,à partida, biológico e político.



(108) O pensamento tenta absolver os homens da sua violência – ou não passará de um intoxicante ainda mais terrivel que o sabor do sangue?

(109) Nunca nos limpamos suficientemente quer do erro quer da ignorância, por mais que nos simplifiquemos nos fundamentos ou nos eduquemos na etiqueta de ciências plausíveis. A nossa perfeição é tanto mais perfeita na admissão de desavindas ignorâncias e de imperfeitas hipóteses do que na maningância de uma snob excelência.

(110) Pensar melhor, um pouco melhor.

(142) A inteligência procura segurar-se. Uma leve ironia não a deixa atirar-se ao abismo.

(143) Cada coisa tem a sua forma deformante e a sua materialidade com ecos imateriais.

(144) A coisidade de um objecto é mais um combustível que anima a já de si animada alma.

(145) O intelecto procura demonstrar que é simples como garantia da autenticidade, mas não passa de um composto, uma conectiva máquina de filtrar estados de sensibilidade e de confusão cognitiva.

(146) O intelecto possível é determinado pelo modos como arruma, pelas prateleiras cognitivas que se pretendem virgens mas que já foram desfloradas ainda antes de nascerem.

(147) O nosso intelecto procura entender-se a si mesmo, mas não há especulação que espelhe efectivamente. O intelecto é uma voracidade esquemática enamorada dos axiomas e teoremas que propõe.

(148) A matéria é inseparável da suposta imaterialidade. Inseparável quer dizer que são o mesmo ser.

(149) A natureza dispersa-se em afãs produtivos, reprodutivos e destrutivos. Nós somos as criaturas que procuram ter acesso aos mais delicados mecanismos dessa engrenagem. A inteligência é a porta aberta para uma compreensão intensa. A inteligência está com a luz, solicitando a competência farmaceutica das cores. Entenderás a potência como o paradisiaco que não cessa de ser em acto.

(150) O pensamento que se revela na arte da vida é mais nobre do que aquele que se deixa subjugar por potências alheias. O pensamento nobre, e a arte nobre enobrecem a vida.




(151) O intelecto é mortal mas procura perpétuar-se recorrendo a multiplos registos. Não podemos confundir os registos com o intelecto.

(152) O intelecto opera com termos polposos – têm demasiados braços para agarrar as coisas.

(153) Outro dos atributos do intelecto é o de pôr em acção as diversas analogias e relações como se fossem tribos de afectos.

(160) Todo ser é sensível por mais que seja filtrado pelas comédias do inteligível.

(161) A alma é, de certa maneira, a implexação do nada e a implicação rizomática de todas as coisas num complot ontológico.

(162) As ciências interagem umas sobre as outras como linguagens transgredindo as fronteiras. Nenhuma ciência se traduz completamente noutra.

(163) Não é a espécie (no sentido «escolástico») que designa a pedra que está na alma, mas a velocidade de um saber que permite denominar a pedra como pedra reconhecível. A alma é uma velocidade que é sensivel a determinadas redes de convenções.

(164) A mão é o orgão que se compraz em manipular os outros orgãos.

(165) O intelecto organiza, desorganiza e reorganiza as espécies de acordo com as velocidades da alma.









(166) O apetite, a fome e a gula são os pais da vontade – esta é uma extensão caprichosa da gestão da fome. A disciplina da inteligência surge muitas vezes como disciplina de rejeição do apetite – ascese; isto é, passar fome. Da mesma forma a inteligência é a superabundância resultante de uma ascese. A inteligência transforma a vontade, as capacidades perceptivas e até a sensibilidade. Também se deleita na dificil gestão dos humores, sobretudo da ira e da concupiscência.

(167) Tal como as sensações e percepções geram equivocos também os caminhos da consciência podem levar a erros, por mais seguros que sejam os métodos utilizados.

(168) A natureza nada faz impunemente – cria-nos necessidades caprichosas e procura-nos viciar na superabundância. Mas em geral a gestão do mundo, nas suas inumeras localidades, parece quase perfeita.

(169) Procuramos principios como nucleos estratégicos a partir dos quais criamos redes de tráfico de sentido que nos dão acesso à variedade e às regularidades do mundo.

(170) O desejo que nos empurra para as coisas é ético, não no sentido de um bem «moral» que se opõe ao mal, mas no sentido de intoxicação voluntária que abre mais diferenças nas diferenças já assimiladas.

(171) Falar de animalidade é falar de mobilidade, de criaturas vocacionadas para a acção. E o que é que as faz mover? São motores vários dos quais o mais evidente é o coração.

(172) O movimento é dado ao animal. Ele dispensa-o em actividades de manutenção. Mas o homem tem apetites que se estendem bem para lá das suas necessidades ou da sua segurança. O homem explora o movimento nos limites da sua própria movimentação. Por isso a dança é a metáfora de todas as artes, movimento exploratório por excelência, na apetência do corpo pelo espaço em todas as variantes posicionais e ritmícas.

(173) A alma começa por ser vegetal, como reacção à relativa estabilidade do mineral. A animalidade é já um estado de radical liberdade quer perante a formalidade grosseira do mineral e o limitado nomadismo do vegetal.

(174) É por necessidade que qualquer animal possui uma voracidade semiológica – é o que o distingue do in-animal.

(175) Nenhuma animalidade é pura ou simples. É antes contaminada, conspurcada e complexa.

(176) Os animais apetecem-se uns aos outros através do gostar (e degustar) e do tocar – os afectos mais imediatos expressam-se predominantemente nestes dois sentidos. Os outros sentidos desenvolvem o lúdico, o belo, o conforto e a tranquilidade.

(177) Ver é uma promiscuidade. O olhar acolhe as coisas como uma oferenda que será devorada pelo fogo dos seus hábitos perceptivos.

(178) Nenhum sentido, por mais universal e abstracto que seja consegue ausentar radicalmente a animalidade que o engendrou.



(179) A sensibilidade sublime procura alastrar o sentido para lá do sentido.

(180) O excesso de tangíbilidade corrompe a excelência no animal. Deveriamos defender o direito ao pudor como algo divino.

(181) Os animais possuem línguas para oscular nos outros os apetitosos significantes. Comunicar é partilhar as mesmas iguarias semanticas.

tau-tau (501-534)


501. Só o pensamento que dansa se consegue elevar acima da verdade e da mentira.
502. A natureza prefera as curvas às rectas. Foi para distinguir a «humanidade» da natureza que se construiram piramides e zigurates. Um sublime non-sense.
503. A lógica da arquitectura é uma lógica da morte. A casa prepara o túmulo.
504. Os homens não foram feitos para estar fechados em casa.
505. A espiral pode ser disfarçada pelas geometrias derivadas do número de ouro. Mas esta substituição não passa de uma superstição.
506. Há no entanto construções que são feitas para que a natureza se torne mais aprazível, onde o ar entra e onde o céu se torna mais azul. Que lindo!
507. O culto dos mortos no Egipto é o oposto da obcessão com o porlongamento da vida dos chineses.
508. A natureza é maneirista. Faz contrastar o sofisticado com o rústico, o orgânico com o inorgânico, a decadência com a emergência.
509. A natureza é sósia do homem.
510. As necessidades provocam o aumento. O exercicio adia a decadência. A sobreabundância convida ao carnavalesco.
511. O sábio alterna o comportamento carnavalesco com um falso puritanismo. Apenas aceita a pureza como uma preparação para o deboche.
512. É do prazer no trabalho que se obtêm recompensas. Toda a recompensa extra só serve para amaciar a auto-estima.






513. Benefeciar o mundo é benefeciar do mundo.
514. A arte é irresponsável perante os povos, mas a arte é a resposta ao mundo.
515. Os povos são solidários. Forjam laços que apenas servem para conservar o status quo. A arte serve para liquídar. A arte é como a àgua, endurece, torna-se liquída e evapora com bastante facilidade.
516. Os povos são governados com a força das armas e do dinheiro. O artista governa o mundo com a fraquesa da arte e com a aderência ao clima.
517. A arte responde à arte. As coisas inuteis têm uma responsabilidade perante a inutilidade que as precede. Esse dever inalienável entra no coração da produção artistíca.
518. Para alguns a arte só se passa nas obras que o artista produz. Para o sábio o importante na arte é a vida que não está nelas.
519. Com òdio e ressentimento não se fazem obras de arte mas apenas maus cartoons. Nada disso remanesce.
520. A arte é as dissonâncias da reconciliação. Uma harmonia que exclua as dissonâncias e as impurezas tem hábitos assassinos. A arte procura o impuro. Com esse impuro contaminará o mundo através de epidemias benéficas.
521. O tesão de uma nação é o prazer da punição. O sábio, pelo contrário, nem sequer precisa de perdoar, ‘porque no Tau-Tau não há culpas ou delitos.
522. O sábio não procura forjar imagens utópicas, sejam atarracadas ou gloriosas. Quem se agarra a uma utopia agarra-se a uma mediocridade. O mundo, com tudo o que é tortuoso, inclemente e indignante, é mais fascinante que a mais perfeita das Utopias.
523. As nações devem seguir o hálito do mundo. As nações devem aceitar a sua natural dissolução. As nações necessitam mais da interacção de todos os seres com todos os outros seres do que disputas de faca e algidar por bandeiras foleiras, linguas, religiões ou pedacinhos de terra.




524. Não confio na honestidade de um povo que se veste discretamente. Prefiro confiar na desonestidade de um povo que se vista com exuberância.
525. A retórica é mais exacta do que qualquer verdade. A verdade é uma pretensão, a retórica uma mecânica.
526. Uma relação amorosa sem conflitos não sobrevive durante muito tempo.
527. A concorrência optimiza.
528. O sábio conhece os seus limites. Os seus progressos são lentos e graduais. Os seus retrocessos são frequentes e normais.
529. Para o sábio a qualidade procura a diversidade.
530. Enquanto todos dormem o sábio pensa. Os efeitos dos pensamentos do sábio entram nos sonhos dos homens. Quando estes acordam há no ar uma estranha sabedoria.
531. A prudência precisa de irreverência e disputa.
532. A vida precisa mais de satisfação do que sentido. A pequena satisfação quer sempre uma satisfação mais intensa.
533. É a dor assim tão imprescindível? Não. É a seriedade garante de alguma coisa concreta? Não!
534. Haverá melhor benefício do que o extâse?

tau-tau (451-500)


451. O problemático parece insípido, mas é como a bola de neve.
452. Multiplica-te aos poucos.
453. O retorno do amor tem òdio adiado à mistura.
454. Quem faz o exame de si-mesmo com rigor não tem boa nota.
455. A dificuldade ilumina o futuro.
456. A mentira é um bom começo para algo que não tem fim
457. O que é distante fora é fácil de antecipar dentro.
458. Não é com indiferença que quebrarás o gelo.
459. São as coisas mais pequenas que se movem com maior velocidade.
460. É mais provável o tiro saír pela culatra do que a culatra pelo tiro.
461. Negoceia dentro do possivel. Quanto mais cederes mais acessos terás.
462. Cria a melhor organização a partir da pior das confusões.



463. Agir é extremar.
464. É necessário enfrentar o declínio agarrando a besta pelo rabo mas nunca pelos cornos.
465. O cio faz com que nem tudo seja um falhanço.
466. Paradoxo: o sábio deseja não ter desejos.
467. O que é que se pode dar aos povos que não seja algo a mais?
468. A natureza acaba sempre por interferir em coisas que não lhe parecem dizer respeito.
469. Diminuir os conhecimentos é retirar vantagens. Uma nação governável e estupidificada será uma boa presa para uma nação astuta e conhecedora.
470. Se os conhecimentos destrõe nações, o sábio dará conhecimentos para que as nações sejam destruídas. O mundo só será razoável quando todas as nações e os nacionalismos forem suprimidos pelos factos. Na natureza não há nações.
471. A história foi inventada para testemunhar os momentos críticos, não para exaltar vitórias. A história perlonga a memória e faz com que esta co-habite com a natureza. A história dá a entender, mas não pode compreender. A sequência dos acontecimentos é misteriosa.
472. Nenhum povo deve dominar outro povo. O melhor que pode acontecer aos povos é misturarem-se.
473. Nunca sigas a vox populi.
474. Aquilo que o sábio quiz significar adquire precisão a partir do momento em que ele refutou aquilo que disse. Os significados só são vivos em função das circunstâncias. As circunstâncias são ambiguas. Só passadas as circunstâncias é que se começa a entender um pouco dessas circunstâncias.
475. Usar o amor como uma arma é contraproducente.
476. A frieza no combate é uma vantagem. A frieza fora do combate é uma desvantagem. O que é que é combate? O que é que não é combate?




477. O melhor ataque é a surpresa.
478. Faz com que o inimigo se sobrestime.
479. Um homem pode executar as coisas sem as compreender. Há quem diga que isso é que é místico.
480. O mal-entendido é uma boa parte da comunicação. Mas nem tudo é mal-entendido. O que não é mal-entendido será a má parte da comunicação?
481. O coração do sábio em nada difere do do homem comum. As suas palavras parecem levianas, mas cortam como laser.
482. O sábio é um expert na ignorância.
483. A subtileza por vezes confunde-se com a ignorância.
484. A doença consegue tornar o sábio ainda mais saudável.
485. Quando a economia arrefece os povos tremem.
486. Aproveita as oportunidades com elegância.
487. Por vezes o destino favorece as pessoas erradas.
488. A rejeição pode ser uma vantagem irónica.
489. O destino é uma má resposta para explicar coisas estupidas.
490. O destino é como o tapete estendido pelo assassino.
491. É preferível improvisar a planear. Mas há que ser bom a improvisar.
492. As mãos do destino estão velhas e gastas. Os seus dedos só servem para apertar gargantas.
493. Os povos procuram nos seus líderes os carrascos que eles não têm coragem de ser.




494. Na tirania a mecânica do poder torna-se mais evidente.
495. Interferir com a não-interência é muito diferente de não interferir.
496. A partir do momento em que estipulas regras de conduta quererás imediatamente fugir delas. Conduz-te como se tivesses regras mas não as tendo.
497. A disciplina é a raíz da liberdade. A liberdade sem disciplina leva à nausea.
498. A novidade é frágil, fraca, quase imperceptível. No ínicio as coisas são moles e flexíveis. No ocaso secas, perras e ressequidas. A estatuificação é a morte. A morte é o status e o estado.
499. Doce, flexível, alegre, terno, vulnerável, receptivo, afectivo. São estas as qualidades do sábio. Não será difícil enumerar os defeitos do idiota.
500. As verdades, porque são inflexíveis, morrem depressa.

tau-tau (401-450)


401. É na violência e no caos que os homens se revelam na sua indignante plenitude. A prudência, nesta situação, de pouco serve. O desespero e as necessidades mais básicas e mais vis são as normas.
402. Toda a guerra é um crime. Nenhum guerreiro está isento de crimes de guerra.
403. A paz e a civilização escondem as evidências ferozes da guerra e sublimam-nas nas instituições.
404. A arte é a alternativa à guerra.
405. É certo que a arte se torna, mais cedo ou mais tarde, o ornamento das instituições e a fachada de algo maligno.
406. A ingenuidade da arte disfarça a crueldade e o cinismo dos governos. Por isso os poderes não são indiferentes à arte.
407. O luxo é mais do que um acto de valorização. A delicadeza do luxo pressupõe uma hiperssensibilidade.
408. O estado emocional do sábio não é o espelho do estado das coisas.
409. A artephysis não se resigna com facilidade à sua violência.
410. O direito ao prazer é mais consequente do que o direito à felicidade.
411. Uma linha tortuosa é melhor solução do que uma linha recta.
412. Se queres saír depressa de casa, salta pela janela.
413. Um povo honesto não é feliz.
414. A sedução faz mais milagres que a bondade.
415. Quando uma nação construir os seus hábitos suprimindo o prazer poderá viver tranquila, como se estivesse espartilhada, mas nunca viverá contente.



416. O sábio é firme na sua flexibilidade.
417. Perante o fanatismo o sábio é inflexível.
418. Governa o mundo inteiro como se assasses sardinhas. Mas governa a tua casa como se cozesses um pargo.
419. Há sempre um caminho fluido no meio do atrito.
420. A grande força não faz demonstrações de força.
421. A exuberância só faz sentido para enganar o inimigo.
422. Quem tem lata procura mais oportunidades.
423. O sábio não está enraízado na terra, é a terra que se enraíza nele.
424. Devemos procurar ter influência enquanto palitamos os dentes.
425. Andar de uniforme é ter já dois palmos dentro da morte.
426. O Tau-Tau não está na ponta das baionetas, mas na ponta da lingua.
427. A emoção é a locomotiva da intiligência.
428. Há emoções que são como feras e estão prontas a devorar-nos.
429. O sábio esquece o sublime. O sublime não passa de um mau sucedâneo do Tau-Tau.
430. As emoções quando se tornam banais geram violentas emoções colaterais.
431. As melhores relações entre estados são as mais frescas.
432. Os pactos antigos sabem a hipocrisia. São como a velha viuva tentando seduzir o asceta senil.
433. Quando as coisas estão tenras são mais submissas.



434. A vontade dos grandes submete-se à indiferença do sábio.
435. É preferível estar no centro de um pequeno país do que no suburbio de um grande.
436. Divisa do mestre: a elasticidade na elasticidade.
437. O que governa a vontade é um desejo masoquista de submissão à natureza.
438. A nossa única finalidade é evadirmo-nos de todas as finalidades.
439. O Tau-Tau desinteressa-se pelas origens. Nem sequer é origem de origem. Não é ser nem não-ser. É Não-não-ser.
440. O É de que fala Parménides foi suficientemente refutado por Górgias. As afirmações de Górgias não se destinavam a provar o não-É, mas a lançar uma suspeita sobre a comunicabilidade e a lógica.
441. O Não-não-é é como a doxa: é multiplo, equivocamente comunicável, divisivel e ilusório.
442. Há algo entre a emergência e a aniquilação, entre o ser e o nada. É isso que é a natureza e o Tau-Tau.
443. Como é que alguém se pode refugiar e consolar com o Tau-Tau? Se fosse ser seria indestrutivel. Se fosse Nada seria igualmente indestrutível. Ora o Tau-Tau é criação e destruição simultaneamente. Nem ser nem nada.
444. O Tau-Tau não procura respeito ou admiração.
445. As convenções só são interessantes como plantas. Há convenções mais e menos belas. Podemos tirar consequências de um juízo estético? Talvez.
446. Se procuras o Tau-Tau não o encontrarás. É quando foges que o encontras. Mas não procures fugir para o encontrar.
447. O Tau-Tau joga às escondidas e no entanto não há nada mais omnipresente.
448. Tau-Tau? Tchau-Tchau!



449. Trata as dificuldades com ironia. Encara a não-acção como a dificuldade suprema.
450. A facilidade com que o dificil se torna fácil é identico à capacidade de o fácil assumir proporções trágicas.

tau-tau (351-400)


351. Na ingenuidade o mundo surge encantado. A lucidez é o estado critíco de decepção.
352. Há quem diga que conquistar o mundo é não mexer uma palha. O sábio preferer mexer umas quantas palhas para não ter a responsabilidade de ter um mundo conquistado nas mãos.
353. Para ser franco, o mundo é inconquistável. A conquista é uma alegoria das atribulações e desordens em que o mundo se mete.
354. O sábio tem dificuldade em distinguir-se das restantes coisas. O que não quer dizer que ele seja indistinto. O que ele é, é portador da indistinção.
355. As necessidades dos povos não são as suas. Será que os povos deveriam comportar-se como o sábio? Ou isso seria a suprema insensatez?
356. O sábio confia no acessório, no supérfluo. Para ele há mais verdade nas mentiras das fábulas do que nas verdades da ciência.
357. É uma banalidade, mas vida e morte são indissociáveis. O sábio procura porlongar a sua vida como se esticasse a sua morte. A morte precede a vida, como um tempo desmesurado e sem tempo.
358. A morte é a substância dos sonhos. Nos sonhos os teus antepassados procuram-te. A semelhança do sonho com a morte é temível.
359. Nada nos garante que a morte seja morte. Nada nos garante que os nossos limites sejam apenas estes limites. Será que participamos em algo maior ou menor? Será que somos participantes em nada?
360. «Quanto tempo estaremos no tempo?». O que é que é estar fora do tempo?
361. Para alguns filósofos há uma assimetria radical entre a morte e a vida. A vida é a excepção, a morte a norma. A morte e a vida não seriam duas faces da mesma moeda, porque a vida seria pouco mais que um ponto num oceano de morte.
362. A morte nada redime. As poucas vezes que a morte se transforma em vida nada traz de reconfortante.
363. A morte é assexuada. O assexuado precede toda a sexuação. É a sexuação que torna a vida mais plena.



364. O Tau-Tau não é o recuo à morte mas o inexplicável da vida, quer na doçura quer na violência.
365. A ternura é um exercicio espiritual.
366. O repouso existe como preparação do frenesim.
367. Comparamos o amor a algo que nos satisfaça como a teta materna: uma satisfação absoluta, embora circunstâncial.
368. Quem exige é porque não sabe dar.
369. A dádiva é a negação da reciprocidade.
370. O altruísta é egoísta nos meandros da consciência. O sábio é altruísta como se procurasse denegrir-se. Não encontra nenhum júbilo em ajudar os outros. Fá-lo como se nunca tivesse estado em falta.
371. Os deveres da natureza para connosco são muito superiores a qualquer dívida que tenhamos para com ela.
372. O sábio é aquele que acumula dádivas futuras. A grande arte é a dádiva de uma alegria estonteante.
373. Toda a legitimidade é indesejável. A natureza excepcional da natureza viva leva-nos a encará-la menos como lei e mais como delito. O inorgânico é completamente amoral. As leis foram criadas para nos defenderen de algumas potêncialidades crueis da natureza.
374. O descontrole, a desdomesticação, etc. Tudo isto nos leva a algo bem distinto do mito do bom selvagem. Nós não queremos tornarmo-nos mais naturais. Nós somos excessivamente naturais, mesmo nas coisas mais sofisticadas e culturais. O que queremos é desfazer esta oposição entre cultura e natureza.
375. O inorgânico não ama.
376. Suspender o juízo? Surpreender o juízo? Reservamos os nossos julgamentos porque os acontecimentos são delicados, mas sobretudo procuramos falar ao lado, destilando todo o veneno possível, inutilmente.
377. Esse tipo de conversa natural, burlesca, carnavalesca, auto-denegridora, esclarece em parte o turbilhão que nos atravessa. É uma conversa à qual se deve dar atenção. É a tagarelice que permite o pudor.
378. Prefere o detalhe a Deus. Prefere a exactidão à perfeição.
379. Pensa com tacto.
380. A honestidade acaba sempre por ser a corruptora.
381. Desvia-te da estrada principal, só encontrarás nela gente simplificada.
382. Quem sabe não sabe lá muito bem.
383. Os paradoxos são fáceis de enunciar. São uma forma electrizada de pôr algumas palavras a borbulhar.



384. Falar é uma necessidade canora.
385. Quem procura o silêncio sufoca o cantor.
386. A aproximação à natureza é feita de um modo musical: com as orelhas e com a voz.
387. A harmonia é uma designação musical. A noção de ruído é do dominio da escuta. Todos os sons se buscam. Não há não-harmonia.
388. Se a harmonia é apenas um modo simplificado dos sons rimarem então o sábio ama as calamidades ruidosas.
389. O silêncio não cala. A fala não «fala». Como se explica esta tagarelice?
390. É menos importante o que se diz do que o como se diz.
391. O sábio está menos preocupado com a meia duzia de palavras que é capaz de combinar de modo a que elas penetrem nos adeptos, e mais preocupado com o modo como elas vão ser saboreadas. O contexto físico e emocional é mais importante que os espartilhos da gramática.
392. Ao fim de algumas tiradas como estas a sabedoria é uma maçada.
393. Dizer que nada afecta o sábio é pura demagogia. O sábio é afectado mas com muito mais ligeireza. Essa menor afectação do sábio deve-se ao facto dele estar repleto de afectos. Quanto mais afectos dá, mais deles se enche. Os carentes são os incapazes de generosidade.
394. Sê humido como a terra e sêco como o céu.
395. A imparcialidade não é possivel num governante.
396. A inocência não assenta num governante. Um governante é um culpado voluntário. Ou uma piada de mau-gosto?
397. À luz do Tau-Tau somos todos ingénuos. A ingenuidade é o que nos é comum e o que nos diferencia.
398. A ingenuidade é a genialidade.



399. Na guerra a traição é a melhor das intenções. Sem cinismo as derrotas estão asseguradas.
400. Se queres manter a candura durante uma guerra foge o mais depressa possível.

tau-tau (301-350)


301. Ao mestre faltam objectivos precisos. Ele não olha para o alvo, mas para tudo o que está à volta do alvo. O alvo é o inevitável.
302. Os falhanços do sábio são os sucessos das civilizações.
303. Todas as obras de arte são fracassos, sobretudo as mais interessantes. É isso que as torna imprescindíveis.
304. A incompletude faz sobressair a sofisticação. Quando uma civilização atinge a perfeição vira-se para a variedade extra-canónica e para as erupções do tosco. A sprezzatura dos maneiristas em pouco difere do wu wei dos taoístas.
305. A maior beleza parecerá frouxa.
306. A beleza compulsiva parecerá demente.
307. A beleza é o styling da sexualidade.
308. A arte mais complexa menospreza a significação literal e as esmeradas intencionalidades.
309. O sentido em arte é uma ratoeira para imbecis.
310. A perfeição é um ideal de tipos carentes que querem continuar carentes.
311. Na cama a perfeição não existe.
312. Pericia, intuição, improvisação, reciprocidade: sem estes elementos o sexo é estafado.
313. O orgasmo é a promessa de um extase muito superior. A beleza é apenas a promessa de um orgasmo.
314. O sublime exprime-se naturalmente nas morfologias da sexualidade.
315. O sublime de tipo chinês procura acentuar as referências post-orgásticas, isto é, a descompressão.
316. O sublime tal como foi forjado pelo vucabulário filosófico do ocidente não é distinto da mais crua sedução. Há nele algo de operático, de enfático. Percebemos melhor Kant escutando o Don Giovanni. Caspar Frederich é um contemporâneo de Schopenhauer que procura antecipadamente a música insipida de Wagner.
317. A forma vem simples. Depois busca a composição e a perfeição. Então quererá libertar-se do que obteve. Procurará dobras e convulsões. Finalmente agradar-lhe-ão as nuvens e o nada.



318. Depois do nada a forma regressa revigorada. Tal como o sexo.
319. Ao aceitares o mundo ele abre-se como uma fruta madura.
320. O desejo semeia. É a limitação que colhes. É na aceitação que desfrutas.
321. A concordia é o que sobra à discórdia. A discórdia é o que é ensinado. A concórdia o aprendido.
322. Torna-te o professor que constantemente se supera.
323. O improvável é a fera.
324. O sonho é o que restringe.
325. O subtil é mais forte que o perentório. A desconversa é mais interessante que a persuasão.
326. O que não se move opera no mundo revoluções discretas.
327. Ensina como se refutasses todas as evidências.
328. Age como se surfasses na crista da onda dos acontecimentos.
329. Glória ou posteridade, qual das duas a mais ingrata? Antes a fome que a fama. Ao nome prefere a lama.
330. Encara os teus deveres, não como um sacrificio, mas como uma distracção.



331. O amor destroi mais familias que a riqueza. Toda a riqueza é trabalho desperdiçado somado a roubos acumulados. É o amor e a riqueza que operam as grandes mudanças no mundo.
332. O sábio permanece contente no momento do desastre. O contentamento é a maravilha que ninguém lhe pode extorquir.
333. O sábio combina o espirito da dança com a prudência. É ingénuo para com as pequenas mentiras porque está sempre atento às grandes.
334. A imperfeição é mais perfeita que a perfeição porque a perfeição se circunscreve a si mesma e a perfeição nunca mais acaba.
335. O que é oferece a sua presença na deterioração.
336. O vazio é a abundância de espaço. A abundância é a míngua de espaço.
337. Quem acumula sofre o peso do acumulado. A acumulação leva à inércia.
338. As contradicções não são suficientemente falsas nem verdadeiras. As verdades só se adequam a factos menores. Os paradoxos são as sobremesas das aparências.
339. O Paradoxo é constante e não leva a nada.
340. O engenhoso parece desageitado. Mas é ele que se safa.
341. A grande eloquência parece uma tagarelice, mas é o prazer de falar que torna as palavras mais intensas.
342. O desejo aquieta o mundo. A acção abre portas para o contentamento. A inacção é a diferença da indiferença. As coisas não precisam de ser controladas.
343. O desejo é a maldição que traz a benção.
344. O sábio é ganancioso de contentamento.
345. A miséria alheia as pessoas dos sentimentos elevados.








346. É através da alegria que condensas o que há de melhor. Os actos dos outros são apenas o desenvolvimento inconsequente da alegria que trazes no ventre.
347. A experiência vale pelo que se experimenta e não pelo que se conhece. O conhecimento é uma experiência. As atribulações do conhecimento não são forçosamente induzidas da experiência.
348. Quanto mais sabes mais gostas de experimentar por experimentar.
349. O sábio vagueia para experimentar. Não acumula conhecimentos nem julga sas suas experiências.
350. O seguidor do Tau-Tau vai desaprendendo. Cada dia ele sabe menos. Ele prefere a ingenuidade à lucidez.

tau-tau (251-300)


251. A arte ínsipida é mais higiénica e subtil. A arte intensa é mais òbvia e porca.
252. O Tau-Tau é arte e e a gama dos sabores. Pode parecer inaudível, mas ouve-se. Pode parecer invisível, mas vê-se.
253. O Tau-Tau é concórdia e discórdia. É como a respiração. Quando inspira todo o ar se concentra numa zona, quando expira todo o ar se dispersa.
254. O Tau-Tau é como a música barroca: combinatória de simultaneos em multiplos sentidos.
255. Se quiseres retirar força a um adversário deixa que ela se disperse. Por mais forte que seja, se a sua força estiver distribuída em muitas zonas o núcleo central será enfraquecido.
256. Usa a força com a maior intensidade e concentração. Persistência e elasticidade são os eixos fundamentais do vigor.
257. Sê flexível como as mulheres. Sê musculado como os guerreiros.
258. A subtileza e a artimanha são mais eficazes do que a força exuberante.
259. A dissimulação penetra no amago de um adversário com mais exactidão do que mil espadas. Destroi o inimigo com palavras. Move-te no invisivel. Usa os seus exércitos para o destruires.
260. O Tau-Tau é o manager do mundo. A sua inacção aumenta a produtividade. No entanto não há perguiça. Apenas uma atenção quieta.
261. A Natureza é desejo. O homem quer arrancar o desejo de si como se este fosse um mal. O homem, na melhor das hipóteses, deseja não desejar. A natureza deseja tranquilamente. E assim as coisas despontam para a exuberância.
262. O inanimado não mostra o desejo. Onde há vida há desejo. A vida procura estruturas cada vez mais complexas. Na complexidade há desejo. Só a simplicidade morta se contenta. O Tau-Tau é o oposto desse tipo de amputação que celebram os budistas.
263. Amar é levar o desejo mais longe. Não há amor sem interesse, seja filial ou passional.
264. Sendo o amor interesseiro ele pode ser o interessado e servir o que se ama.
265. A religião procura obter situações vantajosas ao apelar aos poderes calmantes ou irrequietos do invisível.



266. A justiça é onde os interesses pessoais coabitam com outros interesses de outras pessoas de uma forma ajustada.
267. Se as pessoas não se adequam umas às outras podem afastar-se. Quando os interesses divergem surge a guerra. Quando faltam interesses começa a decadência.
268. As hierarquias existem para que a energia e a inércia sejam bem aproveitadas. As hierarquias surgem com naturalidade nos sistemas. É por elas que os homens lutam.
269. Depois de estabilizada uma hierarquia é muito difícil alterá-la. Os homens lutam por estar no topo das hierarquias como se procurassem a sua perdição.
270. A religião e os ritos dão legitimidade às hierarquias. A legitimidade é apenas um aspecto teatral. A semelhança entre o tribunal e o teatro já vem desde os gregos.
271. A religião torna os deuses mais fortes e os homens mais fracos. Os homens que negoceiam com ínvisivel ficam para sempre em dívida para com ele.
272. O Tau-Tau torna os homens mais fortes e os deuses mais decorativos. Há nesta afirmação algo de rocaille.
273. A dependência extrema do ínvisivel chama-se devoção. Em vez de escravo do mundo o devoto é escravo do ignoto. Vai-se tornando ignorado e alheio ao mundo.
274. O devoto que nada pede está intoxicado de divindade, tal como o opiado do òpio. A devoção é mais barata do que o òpio ou o deboche. Por isso alguém disse que a religião é o òpio do povo. Esqueceu-se de dizer que a revolução era uma ratoeira que apenas leva à substituição hierarquica.
275. A igualdade absoluta é não só impossível como indesejável. A hierarquia existe na natureza como a àgua nos corpos vivos.
276. Há porém momentos de equilibrio e de igualidade social: o banquete e o carnaval.
277. O sábio prefere a lucidez à fé. O sábio sabe que o improvável e o desconhecido são mais fortes que a hipocrisia da normalidade ou que a evasão desta.
278. A fé rejeita o novo, o sábio garante-o.



279. A esperança é um desejo muito defenido pelo qual se aguarda. O sábio satisfaz os seus desejos mal pode e não procura satisfações no futuro. Na esperança há algo de demente que engendra paradoxos.
280. O messianismo é o paradoxo politico-religioso da esperança.
281. O sábio prefere afinar a sua capacidade de extrair prazer do maior número de coisas possiveis em deterimento de uma esperança à qual sucederão decepções.
282. A verdadeira esperança só pode ser esperança do que já aconteceu. A improbabilidade do acontecido é superior à probabilidade do por acontecer.
283. Aceita a tradição com indulgência, rejeita as utopias com intiligência . É a tradição que regenerará as coisas. O espirito da revolução é o do desprezo.
284. Quem olha para o passado menos próximo constatará que este não estava preparado para chegar ao presente. Um momento do passado não é a potência de todos os futuros. Se assim fosse, tudo o que acontece estaria previsto no momento inicial, como um plano bem preciso. O que acontece é que cada momento abre fissuras na determinação.
285. O presente é o que desvia o passado dos seus propósitos mais consequentes. Essa é a importância do presente.
286. Os homens sempre gostaram de idealizar passados monumentais, gloriosos. Sabemos que nada disso aconteceu, antes pelo contrário.
287. O céu seria puro, a terra, fonte de abundância. A duração da vida vasta. A natureza acolhia o homem como uma mãe diligente. Podiamos continuar esta insensata fábula horas a fio, como se falássemos de coisas aborrecidas.
288. Os nossos mitos actuais supõem uma coisa a que chamamos dinossauros. Mas o que houve foi um tempo sem nomes. E uma solidão ainda mais profunda perante um mundo essêncialmente desconfortável, onde a primazia era dada à subrevivência das espécies.
289. Descobriu-se com o tempo o prazer do acessório, a vertigem do sagrado, a excitação da guerra, a insensatez da poesia.
290. Devemos exaltar a fraqueza, o desnecessário, o frugal, as antípodas do sublime.
291. O homem cai e ama a sua queda.
292. Rasga as sedas, livra-te do jade. Come arroz.
293. O Tau-Tau recicla.
294. Aceita os dejectos como se fossem ouro.
295. É o esterco da terra que regenerará o mundo.



296. O Tau-Tau é o que faz rir desbragadamente os que estão em baixo. Os poderosos precisam da seriedade para se fazerem respeitar. Os que estão no meio pensam que a respeitabilidade os pode fazer poderosos. Por isso têm cara de pau.
297. O riso corroi as hierarquias.
298. Os que não riem procuram salvar-se através de rituais violentos.
299. O sábio é como uma hiena, aproveita o que os outros já não querem devorar. Por isso solta gargalhadas.
300. O Tau-Tau parece uma loucura, mas não passa de uma doce irrisão. Os que não riem elouquecem com mais frequência.

tau-tau (201-250)



201. A subtileza obtém coisas que escapam à intiligência.
202. Por vezes a subtileza está próxima da atrasadice mental.
203. Que importa a confusão? Onde reina demasiada ordem reina a esterelidade. Preferes a improvisação ou a impotência? Preferes o dogma ou as subtilezas? Preferes o poder ou a liberdade?
204. Sê o passivo e o activo. Não te contentes em seres apenas a ravina do mundo. Responde-te a ti mesmo. Opõe-te, refuta-te. Compõe-te, confirma-te. Ama platónicamente. Sê um predador sexual. Ou desnaturadamente casto.
205. És aquilo que flui, ora num sentido, ora noutro. O amor e o òdio vêm ter contigo. És inapto como um recêm-nascido? Forte como um homem maduro? Titubeante como um velho? Não. Tu és a elasticidade que contorna todas as idades.
206. Provas a luz e a obscuridade como se tratassem de aperitivos para o Tau-Tau. Sabes o que é o mundo? Ou apenas sabes que sempre houve algo em teu redor ou nas coisas que aconteceram antes e que os homens testemunharam?
207. Tens coragem para seres idealista e rejeitar as sensações como se estas fossem notas de rodapé de uma essência? Não me parece que esse seja o teu caminho!
208. Retorna como se o retorno fosse um passo em frente. Avança para o explendor da inutilidade.
209. Honra-te com a honra. Sê humilde com indiferença. Aceita as honrarias como um ornamento e as humilhações como uma oportunidade. Torna-te o perito de cada ocasião.
210. Quem teme a habilidade senão os inábeis?
211. A espontaneidade, por mais inábil que pareça é extremamente hábil. O inábil nunca será gracioso se nunca se exercitar.
212. Há homens que se tornam ferramentas vivas.
213. O mundo está em mutação permanente e nós participamos voluntária ou involuntáriamente nessa mutação. Os que querem mudar o mundo serão redundantes? Estarão contra a natureza? Ou são apenas instrumentos desta?
214. Participar na mudança do mundo não é obdecer a uma forma, mas entrar no jogo da formação. O numero de classes das formações pode ser simplificado e arrumado.
215. Podemos chamar a essas classes «mutações». É preferivel agrupá-las num número inferior a 100.
216. Nada se possui. Apenas há coisas que se desfrutam. Por isso, de um ponto de vista mecânico há relações sexuais mas do ponto de vista da consciência e da «subjectividade» há apenas onanismo.
217. O desfruto é o que se imaginou e sentiu naquilo que nunca se terá, porque tudo é impossuível e o experimentado é filtrado por representações excessivamente pessoais.



218. As coisas podem germinar ou abortar. A complexidade de causas que contribui para cada acontecimento raramente é mesma e nem sempre é concordante. É certo que há uma inclinação de aspectos que vão num determinado sentido.
219. O sábio intui a direcção dos acontecimentos, mas nem sempre acerta. O sábio tem perante os acontecimentos mais do que uma opinião. Muitas vezes os acontecimentos surpreendem-no. Nesse momento há júbilo.
220. A dificuldade, a facilidade, a força e a fraquesa, são aspectos coreograficos da dança dos acontecimentos. Por vezes o recurso à força é mais eficaz. Outras vezes a inacção provoca revoluções. Frequentemente os fracos desmoronam os fortes. Há sempre forças que resistem às forças que dominam. O sábio procura dar suavidade e flexibilidade aos equilibrios de forças. Uma mudança suave é preferível a uma revolução.
221. O sábio pode não ser extremo ou extravagante mas jamais será fanático. Mas a extravagância leva frequentemente à sabedoria ou ao nada.
222. Quem faz uso de uma força intensa será alvo do seu eco.
223. Quem se limita a ser fraco e passivo incorre no risco de ser esmagado.
224. O sábio sabe que tudo é combate. Por isso foge das guerras. A cobardia do sábio, comparada com a insanidade dos generais, é mil vezes mais digna.
225. A honra de um general está coberta de mortes e sangue, a cobardia do sábio não faz mal a uma mosca.
226. As guerras regeneram os povos, matando as suas gerações mais prometedoras e deixando os países destroçados e mergulhados em impostos.
227. Antes do dever de lutar e morrer pela pátria os homens tem o direito elementar de sobreviver e justificar os esforços de perpétuação dos seus antepassados.
228. Quando a tranquilidade e o bem-estar de muitos está ameaçado é justo que alguns queiram combater. Sem o sacrificio de alguns combatentes as tiranias seriam ainda piores sobre a terra.
229. A violência procura as suas ferramentas. As ferramentas da violência são feitas para ser destruídas.
230. A finalidade dos exércitos é a de desaparecerem.
231. A tarefa do sábio é fazer as coisas desabroxar ou ajudá-las a murchar, se essa for a necessidade mais evidente.



232. O sábio procura acima de tudo a vitalidade e a persistência.
233. A diferença entre um assassino e um heroi de guerra é que um é obrigado a cometer crimes pela sua própria submissão à vontade de chefes enquanto o outro o faz normalmente por livre iniciativa. è o confronto do srviço publico e da iniciativa privada.
234. Quer na guerra quer no crime há um tenebroso prazer.
235. Não há justificação para que se façam estátuas aos herois de guerra e não aos assassinos.
236. O Tau-Tau só tem defenições falsas. Ser falso é mais fácil. A facilidade tem algo de verdadeiro.
237. Quem é que compreende o mundo de facto? É essa uma das tarefas pelas quais nascemos? Ou devemos limitar-nos a viver sem colocar questões inuteis?
238. Quem é senhor dos seus afectos e dos seus estados subjectivos não precisa de pensar em si.
239. As forças vêm de todos os lados: resistem, forçam, reforçam, desistem. O sábio gere as suas próprias forças. Ao gerir-se gere o que o envolve inadevertidamente.
240. O carrasco do mundo é o próprio mundo. Se o mundo procura agarrar-se às suas origens, porque as origens estão presentes a cada momento, o mundo também se agarra à sua auto-aniquilação.
241. Quem se mantém em repouso demasiado tempo enferruja. Quem está sempre em actividade sucumbe. O sábio alterna constantemente repouso comactividade.
242. O Tau-Tau não é do género de acumular dívidas. Na prática ele só acumula dádivas. As criaturas julgam-se devedoras a ele. Mas ele está-se nas tintas para esses sentimentos mesquinhos. O Tau-Tau dá por egoísmo: da dádiva extrai um extremo prazer.
243. Os deuses procuram favores. Os homens negoceiam com os deuses. Sacrificios em troca de favores. O Tau-Tau não entra em negócios reles. Dá o que tem a dar. O que não dá não virá a dar só porque alguém pedincha. O Tau-Tau não cede a chantagens.
244. Qual o sentido do Tau-Tau? Todas as questões quanto ao sentido são incompreensões da natureza do Tau-Tau. O Tau-Tau é determinado, mas o seu modo de acção é a indeterminação. O Tau-Tau faz sentido para cada momento, não faz sentido para o passado nem para o futuro.



245. Toda a intenção é apenas atenção.
246. O fruto da atenção é ainda mais atenção.
247. Mais atenção leva ao extase.
248. Não há uma sequência das coisas, mas multiplas sequências que se cruzam.
249. Uma sequência pode manter-se suspensa durante muito tempo. As sequências podem ser descontínuas. O ressurgimento de uma sequência suspensa é imprevisível.
250. Para uns o Tau-Tau é desprovido de sabor. Para outros o Tau-Tau é a intensidade das especiarias. É a geografia que cria estas necessidades.

tau-tau (151-200)


151. A insistência na inexpressividade pode ser considerada um cume ético mas é a ruina dos sentidos. Uma ética sem sentidos é como um filme mudo para cegos.
152. O sábio não pretende endireitar o torto, mas sómente dar um uso adequado a essa complexa geometria.
153. O sábio introduz a desordem no vazio e o vazio na desordem. A ordem é inevitável. A organização requer um esforço suplementar. Há que escolher o momento apropriado para organizar.
154. O mundo aceita-nos e rejeita-nos com leviandade. Temos o dever e a possibilidade de críticar o mundo, a natureza, deus, os deuses, as leis e os governos, mas sabemos que esses lamentos apenas nos servem para consolar. As orelhas que regem as coisas só são sensíveis aos seus sentimentos patetas.
155. O sábio aceita o mundo com reticências. Procura a excelência. Não desdenha a vulgaridade. Mas também não a cultiva por aí além.
156. Haverá algo mais artificial do que a legitimidade? A legitimidade é a burocracia do que deveria ser a graça. Quando a graça deixa de existir a legitimidade permanece como uma desgraça.
157. A fama sussurra entre o boato e a glória. O sábio está fora desse sussurrar. Por isso ele é glorioso.
158. Ao aceitar o que acontece ele torna-se tentacular. Aceitar não é conformar-se, mas ser um cooperante das transformações. Essa cooperação transforma decisivamente as transformações.
159. Alguém disse: é movendo que repousamos. Ou: é fugindo que nos encontramos. Ou ainda: é esquivando que combatemos.
160. A natureza tagarela baixinho. Não há silêncio nas paisagens, nem nos bichos. Mesmo o vento faz com que os objectos psalmodiem. O ruído da chuva é prodigioso. Mas a natureza não diz nada. É como se falasse pelo prazer de falar.



161. Do mesmo modo a música fala sem procurar nenhum sentido. É jogo e vontade de exprimir por exprimir.
162. Se a natureza não transmite nenhum sentido porque é que o homem o procura? Se o homem não procurar demasiados sentidos começará a sentir. Sentir é ser-se natureza.
163. O amador é mais que o amor ou algo que se concentra no objecto amado. O amador é a abertura para algo concreto. É a desobstrução amatória.
164. Tenta manter-te muito tempo na ponta dos pés e ganharás novos músculos.
165. As justificações são sintomas de impotência.
166. A sabedoria implica um estiramento do corpo e do pensamento, assim como a musculação dos mesmos.
167. Faz da glória um segredo. Os segredos fortalecem a glória.
168. Um mistério não é mais do que um bluff. Com perícia pode dar muito lucro.
169. Ele orgulhava-se de não ser orgulhoso. Baahhh...
170. O amor abole a repugnância e sublima-a numa atracção anormal. O sexo procura-a àvidamente.
171. Os atributos do mistério são não-existentes. Silêncio? Só se fores surdo. Profundidade? Tudo o que é fundo tem limite. Solidão? Baah! Imutabilidade? Por quanto tempo?
172. O Tau-Tau é ubiquo mas não omnipresente. A sua presença é discreta. O Tau-Tau é movediço, ou se preferirem atópico. Está sempre aqui, embora já não esteja aqui nem more ao lado.



173. O Tau-Tau é a madrasta do mundo. Pérfida? Esforçada? Negligente?
174. Podia chamar-lhe todos os nomes. Há nomes inadequados?
175. Quando um místico profissional diz convictamente que alguma treta é inominável poderemos confiar nele? Todos os nomes são convenções. É certo que há sons mais agradáveis do que outros, e mais eficazes quando pronunciados. Mas na escrita todos os nomes ou são bons ou pardos.
176. Todos os limites são borbulhantes. Nos limites as formas estão em guerrilha.
177. O infinito é apenas uma metáfora de acumulação progressiva. O infinito não adianta muito ao sábio. Só aos matemáticos.
178. Se queres caminhar no infinito não vás muito depressa. Nunca o encontrarás por mais que corras. A julgar por Zenão...
179. Para uns o infinito é a imobilidade e o ser, tal como para outros o instante é a eternidade... mas não durante todo o tempo!
180. Se queres caminhar no vazio transforma-te em vazio. Mas se te transformas em vazio não caminharás. Na melhor das hipóteses serás caminhado.
181. No Tau-Tau não há diferença entre vazio e atrito? Há mas a artephysis é mescla. Não é possivel separar o vazio do atrito.
182. As formas são mais constantes e limitadas do que o desejável, embora a sua combinação possa ser infinita.
183. A quantidade das coisas mais pequenas que existem no mundo é em número muito menor do que tu possas imaginar.
184. A artephysis é a combinação de um número muito limitado de elementos. Poucas coisas chegam e sobram para constituir tanta diversidade.
185. A subjectividade é uma pequena coisa sem consistência que experimenta um prazer lubrico em imaginar-se sem limites.
186. O mestre mostra calma. Se não mostrasse calma não conseguiria amestrar os discípulos.
187. Um tom grave é mais convincente. Um mestre que destile a sua sabedoria com voz de falsete é menosprezado.



188. A gravidade é apenas um factor técnico. Inspira mais confiança.
189. É precisamente por isso que desconfiamos da gravidade. Não devemos desdenhar as coisas ligeiras, ruidosas, agitadas, alegres e inconstantes.
190. Agindo com precisão e calma o mestre encanta o mundo e arrasta uma elite de discipulos. Esperemos que não os empurre para o abismo.
191. Agindo com ligeireza ele diverte-se. A sua subjectividade descontrola-se e torna-se mais autêntica. Ele gosta de ir para sitios isolados exprimir-se como um macho na época do cio, dansando frenéticamente, cantando desafinadamente junto a ravinas.
192. O mestre controla quando quer e descontrala-se quando quer. O silêncio mistificador e a alegria dos gritos pânicos são duas faces da mesma moeda.
193. O sábio gosta de viajar. Ele não viaja por curiosidade mas para manifestar um natural desapego por cada lugar ou um ambicioso apego a todos os lugares.
194. O sábio tem alergia à contabilidade e à sua lógica. Se te aparecer um «sábio» que fale em percentagens e seja um bom gestor, considera-te logo uma excelente vítima do seu negócio.
195. Um viajante não é ninguém em fuga. Já não foge para se encontrar. Apenas viaja para permanecer em si. É como um propagandista da sua vacuídade. No anonimato sente as cidades. Se alguém vier ter com ele tanto melhor. É como os vaqueiros solitários e nómadas dos westerns.
196. Não sabemos se o sábio tem bom ou mau fundo. Por vezes a melhor ajuda é feita de pequenos actos de crueldade. Outras vezes mergulha numa compaixão ilimitada. Noutros casos vêmo-lo mergulhado na indiferença, não só para com os outros, mas para consigo.
197. Aceitar tudo e não rejeitar nada? Rejeitar tudo e não aceitar nada? Ser indiferente a tudo e a nada? Acolher os males como o supremo bem? Acolher o bom como o germen do mal?
198. «Deus está no bom detalhe», escreveu Flaubert. O detalhe só existe pela experiência da atenção. O Tau-Tau é a experiência dos detalhes. Quanto a Deus e ao resto...
199. Há uma altura em que os detalhes se confundem com a ausência de detalhes.
200. O mestre obtém o que quer graças à sua vulnerabilidade e humor. É inconsistente. A sua memória não o ajuda. Os ritos provocam-lhe nauseas. Respira devagar como se lhe faltasse força.

tau-tau (101-150)


101. As massas, em geral, são desconfiadas e ressentidas. O santo percer-lhes-á ingénuo.
102. Não há nada na artephysis que faça apelo à transcendência.
103. A subjectividade é como um balão. Quando vazia não ocupa espaço. Quando cheia é apenas a interface entre dois vazios.
104. A paz é pouco mais do que a homeostase da guerra. A disputa é a normalidade. A paz a anormalidade, ou excepção. O sábio concentra-se nas excepções.
105. O mundo esbraceja. Quererá dizer qualquer coisa? Procura uma finalidade obscura? Ou não tem mesmo nada para dizer?
106. Se as coisas não parecem dirigir-se para qualquer alvo, será que vieram de algum sítio? Será que há nelas o desejo, ou a fatalidade, de retornar? Ou não passa de um sonho que reinventa uma calmaria pré-natal?
107. O repouso, a calma, o frio parecem ser mais um estado terminal do que uma origem, por mais interminável que seja essa terminalidade.
108. As origens são vulcânicas, catastróficas, impredictíveis.
109. Renovar é promover a agitação e saber resistir à agitação.
110. A deterioração é quase eterna. Sem, deterioração seria impossível a novidade. Sem a novidade a liberdade seria aborrecida.



111. Não há iluminação sem deterioração. Entender isto é já um passo para transformar o deteriorado no iluminado.
112. A ignorância não ajuda a nada. Se queres ser servo da obscuridade e um mero instrumento dos caprichos da natureza, caminha nos autoestradas da estupidez. Quem sabe se não chegarás à barraca da ciência?
113. Imparcialidade? Magnimosidade? Naturalidade? Tu és natureza e como ela e com ela transformas e és transformado.
114. A artephysis é um xarope.
115. Haverá algo que não seja dotado de visões particulares? Não!Haverá algo acima de qualquer coisa e fora de suspeita? Não! Haverá algo que não seja natural? Não!
116. Queres tornar-te imortal? Não fazes ideia... Sê o próprio Tau-Tau, e logo verás.
117. A geometria é a forma mais prática de arrumar os assuntos. Não sei se é a mais aconselhável...
118. Há quem suspeite de qualidades mágicas da geometria e dos números.
119. As regras procuram amantes.
120. O sábio ama aquilo de que os outros têm nojo.
121. Os assuntos temidos dão boas novelas.
122. As melhores regras têm tendencia a serem desprezadas.
123. Quem tem fé tem deuses à cabeceira.
124. Os temas são por natureza curtos.
125. A finalidade de um tema é ser desenvolvido até à exaustão.



126. Quando falta memória o Tau-Tau é esquecido. A memória dos homens é limitada e não chega para abarcar o Tau-Tau. Por isso o sábio mergulha no Tau-Tau como se mergulhasse no esquecimento.
127. O dever e a justiça são hipocrisias? É o que dizem os anarquistas. A falta de sabedoria é compensada com mil e uma regras idiotas.
128. O contrário de sabedoria é a burocracia.
129. A sabedoria é a súmula das excepções. A burocracia a confusão desnecessária das regras.
130. O patriotismo torna-se arreigado quando a crise desaba sobre as nações.
131. Se despojares um povo de ficções ele torna-se nu. O remédio encontra-se no repouso ou na actividade? Cada povo sofre de uma ficção invulgar.
132. Um povo que não satisfaz os seus desejos cheira mal. Um povo satisfeito tem um ar estupido. Um povo que se vai satisfazendo – eis a eficácia.
133. O uno é uma moda como qualquer outra. É uma moda minimalista. O nada é outra moda ainda mais minimalista.
134. Será que só o múltiplo incomóda?
135. A distinção entre o sim e o não é estratégica.
136. A diferença entre o bom e o mau é uma questão de paladar.
137. Os homens temem a noite porque é nela que a ternura se revela. Na noite os sentimentos rondam o homem como se este tivesse acabado de nascer. A noite é o medo de voltar a nascer? Ou será o medo de regressar ao útero?
138. O sábio repousa na alegria e na dança.
139. Tudo o que se acumula é levado pela morte.
140. Os povos exibem as suas riquezas como se fossem brinquedos. O sábio contenta-se com disparates, e só se tem a si para exibir.



141. Os povos têm imperativos e principios. O sábio improvisa.
142. Os povos são atinados e bimbos. O sábio é desleixado e labrego.
143. Os povos somam saber e glória. O sábio soma prazer e humilhação.
144. O sábio não é um comediante brilhante que entretenha com tiradas intiligentes os comicios. Uma tarde com ele é uma chatice. Estará calado ou será um tagarela. As suas palavras são abruptas. Os seus pensamentos descontinuos. Para professor é bastante confuso.
145. O sábio é produtivo como a natureza, tentando abraçar todas as coisas ao mesmo tempo. Mas o seu corpo não chega para as encomendas.
146. A natureza é uma mãe com demasiados filhos.
147. A artephysis é uma puta.
148. O Tau-Tau esquiva-se. A burocracia é omnipresente como Deus.
149. Por mais constante que seja a natureza esta desdobra-se em inumeras expressões e sensações.
150. Não há expressão antes de ser exprimida. A expressividade é os sentidos em acção.

Thursday, September 13, 2007

tau-tau (51-100)


51. As criaturas são como um enorme romance que desconhece os detalhes e os desenvolvimentos. O sábio é o seu índice. Por isso é que o consultamos.
52. O melhor entre os homens é como o vinho, tornando ébrios aqueles que o provam.
53. Deve-se frequentar um sábio moderadamente. Caso contrário seriamos demasiado fracos para resistir aos extases e idiotias que nos proporciona.
54. A sabedoria, assim como o prazer, encontra-se também nas práticas mais repugnantes.
55. É com as mãos que os homens se agarram à terra, é com as mãos que eles procuram possuír a verdade, é com as mãos que os contratos se tornam evidentes, é com as mãos que se fazem os engenhos e as guerras, é com as mãos que se moldam os sentimentos, é com as mãos que sentes a pele e o cabelo de quem amas, é com as mãos que te tornas experiente e poderás moldar o acaso para que este seja conveniente. Mas não abuses da palavra «mãos» porque tem péssimas conotações poéticas.
56. Aquele que não lutou é aquele que assimila a culpa. Adão limitou-se a obececer. Jacob lutou com o mensageiro de Deus. Job foi um crítico contundente.
57. Estica o círculo de modo a que este rebente.
58. Tudo o que regressa não quer acabar. Queres ter a eternidade como limite vicioso? Rebenta esse círculo que te torna um seu servo.
59. Tem a lâmina afiada para não teres que esfaquear.
60. Acumulas um tesouro porque queres que ele seja roubado.
61. Mantém mil tarefas em aberto, e resolve-as consoante os teus caprichos. Nunca feches todas as portas de repente.



62. Toda a honra que procurares é prostituição. A tua pureza e mérito não serão mais do que uma cedência às hipocrisias dos abjectos.
63. Abraçando tornar-se-á abraçado.
64. Torna-te ligeiro. Respira como se a respiração fosse uma dança.
65. Não procures imitar a inabilidade de um recém-nascido nem o peso entorpecido da maturidade. Sê gracioso e tudo em tua volta se tornará mais fresco.
66. Desobstroi-te. Os sentidos não existem apenas para assimilar o mundo, mas para ser o seu suplemento. Os sentidos não são consequência do mundo. Ele é que é justificado por estes.
67. Apaixona-te, e cometerás injustiças. Serás como o rio que só corre numa direcção. A tua parcialidade terá intensidade. Não percas esta oportunidade.
68. Abre o teu coração como se acolhesses um tufão. As bestas irão sentar-se à tua volta.
69. Aceite o mundo como se estivesses a fazer música experimental.
70. Carregar os fardos, acolher, desobstruir, participar na criação anónimamente, manipular com humildade: estes são os actos que tornam o sábio adorável. Por isso as raparigas o convidam para tomar chá.
71. A fortuna surge da negatividade. O apreço da convenção. É o vazio que transporta o acaso. É o mimetismo que atribui as funções.


72. Demasiada cor, som e gosto levam ao extase. A falta destes elementos afina os sentidos para as minucias do ensonso. As subtilezas nascem das carências. Num país de especiarias procurarás a intensidade dos sabores. Num país de obscuridade procurarás distinguir todos os cinzentos e os diversos cheiros que trázem os ventos. A falta de um sentido será compensada pelos outros. No país da obscuridade só a respiração te levará ao extase.
73. O sábio não será estupido ao ponto de recusar o que a natureza oferece. Na China apreciará o nevoeiro que envolve as montanhas, na Grécia o azul intenso do céu e os contornos das coisas, na India a côr que invade as almas e que as atira para o Absoluto.
74. Quem não aceita a sensação despreza a substância.
75. A ansiedade é já um desapego. O apego é a inércia da ansiedade.
76. Não é o desejo que destroi os homens, mas a posse.
77. Deseja nada possuíres de concreto. Deseja ser a potência. Faz com que as tuas faculdades se enriqueçam a tal ponto que possas ser o artesão de todas as obras de arte, de todas as músicas, de todas as filosofias.
78. Esperança e medo aguardam como traidores nas ruelas da consciência. O frio lá fora também ajuda.
79. Se suprimir a consciência suprimo o medo. Se suprimir os suburbios da consciência onde mora o medo essas traições endurecerão o coração. Os ladrões irão para o palácio.
80. O medo é um animal nocturno. Ao suprimir o medo suprimo a criança que escrutina os sons na escuridão, suprimo a magia da música.
81. E a esperança? A esperança é a evação do condicionado, mesmo que através do condicionado. Ela é o núcleo paradoxal do incondicionado.
82. O mundo não pode ser controlado. Ele resiste à maniopulação do sábio. O mundo é o que refuta permanentemente. A artephysis é o refutante refutável.
83. Quem tenta determinar o mundo afundar-se-á no lodo das suas tiranias.
84. Quem ama o mundo encontrará o alimento mais rico nas refutações e nas inclemências.
85. O som supõe que há sons que não conseguimos escutar. O mesmo acontece com os outros sentidos. Todas essas sensações inalcançáveis serão subtis ou intensas? Sem a sensação não terás acesso a essa subtil sensibilidade para a qual ainda não tens orgãos.
86. A profundidade não tem mistério. Há uma causa única e misteriosa para tudo? Dúvido. O sábio sabe da complexidade e da entrecausalidade. Ele sabe que uma situação é uma rede e não uma origem impensável.
87. O sábio descreve com metáforas que se enrolam umas nas outras e se perdem nos detalhes mais imbecis. Forma e informe complementam-se e solicitam-se. São de estéticas diferentes que se enamoram. As estéticas diferentes são como faces de uma única moeda. Não tarda essa moeda será desvalorizada e substituída por outra.
88. Um mistério não pode ser conhecido porque deixaria de ser mistério. O mistério é apenas a atmosfera da ignorância. È natural que as coisas misteriosas não tenham forma. O desejo das coisas misteriosas é tornarem-se forma.
89. Da mesma forma recorre-se ao índizivel quando há impotência para dizer.
90. O presente e o futuro são variações do passado. Ao analisares o passado neste espirito adivinharás algo das variações que hão-de vir, embora possam ser surpreendentes. Mas só através desta variação que é o presente entenderás, sob este prisma variado os restantes tempos na sua ciclicidade estilistica.
91. Não há originalidade, apenas variações.
92. Não há essências, apenas caçadas conceptuais orientadas.
93. Analisa as morfologias do passado, mas vive as do presente.
94. O que é que é ser compreendido ou incompreendido? Esta é uma questão afectiva.
95. O que é o compreensível e o incompreensível? Esta é uma questão estratégica.
96. O que é profundo é incompreensivel nunca será compreensível porque é uma mistificação. O conhecimento dos aspectos combinatórios da linguagem torna tudo compreensível (mesmo o dito «incompreensível»), como o afirmaram Lautréamont e Wittgenstein.
97. Os santos esforçam-se para parecerem incompreensíveis. Parte da comédia da santidade consiste em desconversar para desviar os parolos. É o que se passa na Divina Comédia. Os parolos ficam no Inferno, os restantes seguem em frente.



98. Os santos são incompreendidos. Não precisam de mais afecto, porque tudo é afecto mais do que suficiente.
99. Os santos sentem-se mal quando alguem os compreende. Correm logo à casa de banho. Será vaidade ou humilhação?
100. Prudentes e entusiastas. O santo é prudente. Examina as situações com perícia. É um técnico que ama os detalhes e que encara as situações partindo da diversidade dos sintomas. O santo é um entusiasta. Mergulha nas situações como se estas fossem algo de absolutamente divino.

Tau-tau (1-50)





1. O Tau-Tau que pode ser conhecido é o falso Tau-Tau. É como o cão que saliva pelo osso, e não o cão que devorou o guizado.
2. A substância tóxicodependente que constitui o mundo é somente um vício sem qualidades.
3. O Tau-Tau é tudo o que existe e tudo o que desiste. O mundo (a artephysis) é o mapa das existências e das desistências.
4. Há que experimentar os clisteres da subjectividade para aprender a detestar o mundo. A dois ou a mais ainda é pior.
5. O mundo é a minha inexperiência e irresponsabilidade. Falta-me além disso vontade para deixar de ter vontade.
6. A experiência só torna o mundo mais distinto do sujeito e das suas atribuladas representações.
7. A filosofia é uma má paródia da sabedoria.
8. A subtileza com o tempo torna-se infinita e... insuportável.
9. Quando a beleza é reconhecida devém um vício.
10. Ulisses vê como é feio ao espelho. Parece-se demasiado com os deuses.
11. O belo e o feio quando comparados tornam-se admiráveis rivais.
12. As massas perferem coisas vulgares. As elites coisas esquesitas. Toda a estética sociológica se pode reduzir a isto.
13. A abstracção é um critério engenhoso e sofisticado. Serve para controlar. O quê? Os vícios e as imagens. Do ponto de vista abstracto toda a imagem é uma perversão.
14. O progresso torna a vida mais fácil, a concorrência mais intensa e o mundo mais feio.
15. O conhecimento cresce na abstracção. O vivo contrai-se quando abstraído. A interacção entre o vivo e o abstracto é a inoperância e a fantasia.
16. O Difícil e o fácil são modos de julgar a resistência. O distante e o próximo são afectos de posição. O forte e o fraco são graus de descontrole. O a seguir e o antes são meras posições sequênciais.
17. As canções e os discursos determinam a influência nas massas e trazem harmonia aos lares mais rafeiros.
18. O controle do sábio faz-se sem grande autoridade. De preferência por telepatia. Põe as canções e as palavras de lado. Manipula pela imobilidade.
19. O sábio permite que as coisas tirem partido das coisas. Deixa que a ascensão e queda das coisas suceda sem demasiada interferência. Não faz exigências, não grita, não espanca. É esquivo como um ladrão. Deixa que as iniciativas surjam como um terramoto. Com violência e ingenuidade.
20. Dar sem exigir. A única dádiva digna de ser dádiva é a dádiva secreta, unilateral, anónima.
21. É preferível elogiar o hipócrita do que elogiar o digno. Os elogios tornam os dignos hipócritas. Por vezes o melhor elogio é um estalo na cara.
22. Pensar é fazer batota, é desviar as aparências da sua beleza descentrada.
23. A estima é que implica o raro. O raro chama a si o roubo. A estima leva ao roubo.
24. A beleza predispõe os povos para a luxuria. A luxuria torna os povos mais belos. Um povo sem luxuria não tem muito interesse.
25. Para controlar a luxuria inventou-se a moralidade e a fiscalidade. O estado nasceu da necessidade de organizar esse controle absurdo.




26. O estado não redestribui a riqueza. Não a tira aos ricos para dar aos pobres como Robun Hood. Tira a ricos e pobres para dar ao estado, isto é, para manter a burocracia e o exército. Contribui ainda para aquilo a que chamaremos a luxuria do estado: cerimonias e monumentos inuteis.
27. Um povo prudente não produz sábios. Um povo sábio não é prudente.
28. Se queres controlar as massas esvazia os seus corações, exige sacrificios e enche-lhes a barriga. Foi o que fez Hitler.
29. Um povo sem ambições é como uma vaca abandonada.
30. Um povo ignorante dedica-se à acção mais depressa. A acção é uma vontade de derrota.
31. A guerra para ser bem sucedida tem que ser feita com tecnologias sofisticadas. Quem ganha uma guerra não é o mais forte ou o mais numeroso mas o que usou melhores táticas e melhores armas. Os povos com conhecimento, por mais perversos que sejam, vencem com facilidade os povos prudentes e ignorantes.
32. Se nenhuma acção for produzida nada me garante que essa comunidade não seja destruída.
33. Astúcia e engenho são mais necessários e indispensáveis para a sobrevivência do que a perfeição moral.
34. O Tau-Tau é um veículo imoderado. A subjectividade guia-o descuidadamente. A natureza inteira não o preenche. É como um espaço elástico ao qual sobra demasiado vazio e demasiado cheio.
35. O sábio não pode ser cortado, atado, escurecido ou acalmado (muito menos acamado).
36. As profundidades são evidentes, ubíquas e teatrais.
37. O que vem não se sabe de onde vem. Vem antes da natureza? Não sabemos.
38. A natureza é rude e díficil de amar. Trata todas as criaturas de uma forma inclemente e pouco misericordiosa. Mas apesar de tudo é materna.
39. O sábio não é querido. Trata as massas com ironia. Mas no fundo é um pai que as ama perdidamente.
40. A natureza gosta de jogar à apanhada.
41. A natureza quanto mais se move, mais se rende às evidências e à violência da dissimulação.
42. O sábio extrai a sabedoria do Tau-Tau como se esta fosse uma cárie.
43. Podes contemplar o céu porque a lotação ainda não está esgotada. Mas um dia pode esgotar.
44. A curva do rio é uma metáfora onde o povo gosta de nadar.
45. Antes do mundo existir estava dentro do sexo de uma mulher cujo nome nunca poderemos saber. A sabedoria consiste em encontrar a labirintica entrada para esse sexo obscuro. Cuidado com os bichos que andam na floresta de pelos.
46. O mundo torna-se mais mundo quando assumimos as nossas contradicções.
47. O Tau-Tau actualiza-se através de si mesmo. A sua não-imagem é inconstante. É como um rio que não se sabe serenar e cujas curvas mudam constantemente.
48. A natureza não é nudez. Há quem diga que a subjectividade não é uma sua propriedade. Mas a natureza é egoísta. E desenvolve multiplos modos de individuação. A natureza é o que há de menos geral. Dizer generalidades sobre ela é como jogar à cabra-cega. É o que se passa aqui.
49. O sábio serve-se a si mesmo porque tem fome. Tem tal excesso de subjectividade (ou de ausência dela) que não cabe nem no seu corpo nem no seu pensamento. Ele arrasta todo esse turbilhão subjectivo como se fosse a sua magnificência.
50. O seu corpo é um acaso que se tornou resistente.

O livro das Escusas (14)


XIV (XV).

223. O fluxo das coisas, das representações e das emoções é de díficil previsão.
224. Cada acontecimento está inclinado para vários outros acontecimentos. A causalidade não é aleatória porque há nexos causais, mas é díficilmente previsivel.
225. As grandes necessidades podem parecer as mais pertinentes, mas os grandes problemas de amanhã são os que hoje são vagamente balbuciados.
226. O mundo, e aos acontecimentos que o acompanham, tem uma têndencia autorrefutativa. O sábio acompanha-o nessa tendência e tenta aprofundá-la. Para a acompanhar, o sábio começa por se refutar.
227. A perplexidade ante a complexidade é a atitude mais adequada e prudente.
228. Essa atitude, embora sábia, deve ser contrariada com a acção criativa.
229. A criatividade activa redime o conformismo da perplexidade.
230. O conformismo do preplexo é uma forma de inconformismo que deve ser combatida de um modo ainda mais inconformista com essa saída para a acção post-paradoxológica.
231. O perplexo, apesar de perplexo, deve apostar.
232. A aposta do perplexo é sempre uma aposta «ao lado» do jogo de opiniões dominantes. É algo esquivo e ao mesmo tempo certeiro.
233. O perplexo deve enumerar, ainda que num círculo restrito as tensões críticas e desmascarar os double binds que dramatizam o mundo.
234. O perplexo, é antes de mais nada um crítico de si mesmo e de todas as civilizações, assim como das injustiças contidas na natureza.
235. O perplexo é consciente quer dos «ilusórios» nexos causais quer da não-causa que é a nulidade do mundo.
236. O silêncio do perplexo não o satisfaz.
237. A sabedoria é a descrição tagarelante do inominável.
238. O sábio é um rigoroso tagarela.

O livro das Escusas (13)


XIII (XIV).

210. O que é o Eros? O Eros é o movimento que tenta reunir o Absoluto ao Negativo. É a tendência de ambos para a Anestesia.
211. O 1 e o -1 são polos extremos, como extremos que são, tudo o que se passa passa-se no seu meio.
212. O 1 é irradiante, o -1 aspirante.
213. Da tensão erótica entre o Absoluto e o Negativo surge uma contra-tensão que os mantém separados.
214. Essa tensão é no entanto inferior à tensão erótica neste espaço específico. A essa tensão chamo Repelente.
215. O anti-erótico é o que aniquila.
216. Toda a alma é responsável perante o Eros e o Repelente.
217. Responsável significa que está num estado de resposta alerta.
218. É destas duas forças e da anestesia que surgem os três principais sentimentos, o Amor, o Òdio e a Indiferença.
219. Estes sentimentos reduzem-se a uma tensão de forças no inanimado mas tornam-se mais intensos proporcionalmente à complexidade.
220. Destes 3 sentimentos surgem as 9 emoções permanentes, e das 9 emoções permanentes emerge toda uma gama variada de estados emocionais transitórios.
221. A cartografia emocional é incarnada. A sua classificação permite discernir as suas qualidades psiquico-químicas.
222. As emoções surgem na vida insequênciadas. O sábio usa-as como alimento criativo e deixa-as sucederem-se uma à outra.

O livro das Escusas (12)


XII (XIII).

204. O jogo da doxa e da paradoxa retira peso aos dogmas.
205. A doxa é o dogma descompactificado.
206. A paradoxa assimila as tensões internas e externas da percepção através de um curto-circuito lógico.
207. A visão das várias doxas na paradoxa e a da fundamentação se cada uma das doxas por uma paradoxa é o contraponto vertiginoso da discriminação.
208. Esta visão é emancipadora e poderosa, cura todas as doenças e proporciona poderes excepcionais.
209. O exercício de tal visão deve ser constante, mesmo para lá da suprema libertação.

O livro das Escusas (11)


XI (XII).

195. A actividade ociosa correcta consiste em contemplar a doxa na paradoxa e a paradoxa na doxa.
196. A contemplação da doxa na paradoxa e o seu reverso faz-se quer ao nivel das percepções, quer ao das inferências, quer ao dos enunciados.
197. A doxa é mais fácil de contemplar porque é precisamento o que nos é dado na sua forma menos degradada. É a glória, ou kavod.
198. A doxa é o que permite ascender ao paraíso através das aparências.
199. A paradoxa é o que permite ascender ao paraíso através de um curto-circuito entre as clivagens lógicas.
200. O estilo é uma forma degradada da doxa.
201. A dedução e a indução são formas bastardas da paradoxa.
202. Todos os enunciados onde há uma predominância metafórica são governados pela doxa.
203. Todos os enunciados onde há uma predominância conceptual supõem uma paradoxa.

O livro das escusas (10)


X (XI).

184. Sem o otium nenhuma libertação é possivel. Ele é o tempo da não-produção, da inutilidade teórica, da ruminação contemplativa.
185. O otium é possivel numa vida agitada desde que o ocioso consiga criar parenteses reflexivos nos momentos desperdiçáveis.
186. É o otium que prepara o kairos.
187. A gestão do tempo deve ser ocupada em tornar o Propício propício.
188. O rito, a repetição, a concentração, o esvasiamento, a criatividade e a desapropriação são metodos que se abrem ao propício.
189. Para que as coisas venham há que desmobilar, fazer espaço.
190. Para que as coisas venham correctamente há que sondar, escutar, prescutar, deixar passagens entreabertas.
191. A gestão de táticas manipulantes leva a que as coisas sejam empurradas por outras coisas para o terreno onde as queremos recolher.
192. A adversidade existe no seio da manipulação.
193. O que nada deseja pouco tem a temer porque se tornou imune ao indesejável.
194. O otium consiste em criar uma insensibilidade ao que pode ser eventualmente indesejável.

O livro das escusas (9)


IX (X).

176. Toda a intiligência tem como pano de fundo um determinado corpus sentimental assim como a sua secagem.
177. Deve-se invocar assim a Empfindsemkeit como pantano do Intelecto.
178. O Intelecto é a porta do Um.
179. O Sentimento é a porta do Múltiplo e a garagem da infinitude.
180. Entre o Intelecto e o Sentimento há as formas.
181. As formas mais esquemática são vizinhas do intelecto, as formas desagregantes são emanações da sentimentalidade.
182. A desagregação total, ou informe, torna banais todas as patéticas. As texturas, o informal, etc, são dejectos da sentimentalidade.
183. O informal está mais próximo do 0 do que do 1 ou do Múltiplo.

O livro das Escusas (8)


VIII (IX).

150. O que distingue o significante do insignificante é a virtus.
151. A força da significação depende da forma como o significador verga as impressões às suas representações.
152. Não existem impressões puras. Existe é uma disponibilidade, ou abertura, para determinadas experiências.
153. Não existem representações puras. Toda a representação agrega as representações que a precederam.
154. Uma representação está sujeita ao palimpsesto activo que murmura nas suas entranhas.
155. O culto do virtus é a virtude.
156. A virtude leva as interpretações onde ela quiser.
157. A virtude recusa o emudecimento total perante os factos, assim como a opinião fácil.
158. A virtude discrimina meticulosamente antes de ser assertiva.
159. A virtude é quase céptica, uma vez que os prós e os contra que cada situação exige recomendariam em caso de prudência a suspensão de qualquer decisão.
160. O não tomar uma decisão é uma conformidade. A virtude exige em resposta à adequação inactiva ao estado crítico das coisas a multiplicação decisória em vários sentidos.
161. A virtude é o que manipula subtilmente a acção sem caír na tentação de poder. Essa manipulação coloca os poderes como algo exterior ao manipulante.
162. Essa manipulação consiste em fazer deixar actuar grupos de forças que aguardam sinais nesse sentido



163. A manipulação não tem caracter cognitivo.
164. A manipulação deixa significar, isto é, entrega o cordeiro aos lobos.
165. É através dessa deixa para que a significação se faça que o insignificante é esmigalhado pela virtus.
166. O insignificante só regressa como dádiva do esquecimento.
167. O esquecimento é o solo de onde toda a novidade floresce.
168. À erupção da novidade deveria chamar-se rememoração.
169. Remorar sem que a novidade esteja presente é a anamnése.
170. Forçar a rememoração é incorrer nos dédalos do insignificante.
171. A experiência da rememoração onde não há vestígios aparentes de nenhuma memória é uma animação destituída de alvo. É como uma caça que se torna num passeio.
172. Essa experiência de despovoamento in moto provoca visões de caracter anamnésico.
173. Podemos dizer que essa entrada no absolutamente vazio e fantasmagórico é a «mística».
174. Místico é o que não se pode enunciar, é a fantasmagoria que não encontra eco na prosa.
175. Místico é o intersticial que se devia ler nas entrelinhas mas que nessas entrelinhas é leitura vazia, como uma energia sem forma.

O livro das escusas (7)


VII (VIII).

132. Passemos a falar da Anacatástrofe, ou retrocesso.
133. Cada acto tem o seu contraponto noutro acto.
134. O declinio indeterminado do mundo supõe um recuo condicionado quer ao Absoluto quer à Nulitude.
135. As aparências são reparadas nas essências.
136. O aparente sentido único do tempo é compensando pelo regresso interno às origens.
137. A decadência esconde o extase que a co-habita.
138. A relação Catástrofe/Anacatástrofe é a Homeostética.
139. Se a Nulitude é o fundo do Absoluto então toda a degradação é relativa.
140. A aparência da degradação é o Mal. A reparação da degradação é o Bem.
141. O sentimento de indegradável é o paradísiaco.
142. O sentimento de inalienável degradação é o inferno.
143. O sentimento de lenta reparação é o purgatório.
144. O sentimento de eterna insolubilidade é o limbo.
145. A Anacatástrofe propõe a aceleração do purgatório com vista ao indegradável paradísiaco.
146. O infernal é necessário como afinação das capacidades reparadoras e como co-produtor da complexidade galopante. O infernal é dado como um modo suave de inferno, isto é, como degradação reciclável.
147. Essa complexidade galopante é um efeito do retrocesso através da Anacatástrofe.
148. Dessa complexidade nasce um efeito tranquilizador que se assemelha à simplicidade.
149. Da mesma forma subsiste uma ânsia pela diversidade e pela multiplicidade.

Livro das Escusas (6)


VI (VII).

125. A discriminação é o que torna pluralizável o que parecia indivisível.
126. Há um eros da enumeração que procura adaptar-se a um suposto rigor geométrico.
127. A enumeração torna os termos mais vigorosos.
128. O rigor geométrico dá um ar de necessidade e de adequação ao que é enumerável.
129. A divisibilidade restrita torna a teoria repartivel. Uma teoria dada massivamente é difícil de assimilar.
130. As categorias põe uma ordem na vasta gama de cada linguagem.
131. As categorias têm uma relação íntima com a forma como a linguagem se estrutura.

O livro das Escusas (5)



V (VI).

114. O conhecimento do que quer que seja só pode ser conhecimento de si mesmo, isto é, Autopsia.
115. Uma Autopsia é uma narração. Na narração a lingua que a narra opera como um filtro sobre o auto-conhecimento.
116. A lingua narrante, procura, através da Autopsia, explorar-se a si mesma. A lingua ilumina-se, mas também ilumina a narração. A lingua é como uma luz que dá mais relevo a determinados pormenores mas deixa outros na sombra.
117. A lingua é a mãe da relevância.
118. O silêncio é indiscriminador, é a impotência de discriminar.
119. Não é possivel discriminar nem o Absoluto nem a Anestesia.
120. Há no entanto a possibilidade de discriminar tudo o que sobra a estes dois termos, por mais irrelevante ou fictício que seja.
121. O que sobra a esses dois termos acaba por caír no dominio do efeito e da opinião, isto é, da Doxa.



122. Tudo o que se possa dizer da Doxa é duvidoso. Tudo o que se possa dizer sem passar pela Doxa ainda é mais duvidoso.
123. A Autópsia recai assim sobre a Doxa. Pensar e doxar são uma e a mesma coisa.
124. A Doxa é um círculo vícioso. Não pode saír de si mesma senão como salto para o Absoluto ou para a Anestesia. O salto para o absoluto faz-se pelo extase. O salto para a anestesia é feito pela exercitação ataraxica.

Livro das escusas (5)


(V.)

91. Interpretar é recuar.
92. Agir é declinar.
93. A interpretação é um recuo na declinação
94. A acção permite que nem tudo seja interpretação.
95. Interpretar é recuar não apenas à acção, ou às determinações dos agentes, mas ao tecido borbulhante que está para lá das causas e acções.
96. Esse tecido é o tempo. O tempo como cruzamento de registos, como inscrição, e o tempo como ameaça de Anestesia ou de insignificância.
97. As interpretações só se fazem a partir de marcas, de sinais que simplificados, se tornam explicitos.
98. Os sinais comportam-se como grafittis, marcam o território de caça ou amoroso.
99. Há sinais involuntários, mas os signos dizem sempre que algo esteve ali, como numa investigação policial.
100. O explícito é apenas um iceberg da plenitude.
101. O implicito é aquilo que queremos implicar numa dramaturgia de inferências.
102. O subreptício é aquilo que se insinua, mas não claramente.
103. Interpretar é tornar o passado numa determinação sintomática.
104. Interpretar não é ser fiel aos factos, antes pelo contrário. Na interpretação há uma tendência inequívoca de infidelização em busca de uma complexidade acrescida e de um deleite narrativo.
105. Interpretar é ser congruente com a animação. É um recuo da alma ao absoluto.
106. Há quem prefira chamar-lhe gradus ad parnasum.
107. Interpretar é também agir contra a acção, arrepiantemente. É o acto paradoxante de agitação.



108. Impressão, expressão, afectação, inferência e congruência sequêncial são modos que governam a intrerpretação.
109. A impressão é a focagem imediata.
110. A expressão é o grau de animação que estimulou o conjunto dos sentidos.
111. Afectação é a alteração no interpretante que depende da permeabilidade ou impermeabilidade deste ao interpretável.
112. Inferência é o uso de mecanismos de implicação interpretativa mais ou menos rigorosos que secam o interpretável da impressão.
113. A congruência sequêncial é o uso de um conjunto de informações sobre o contexto do objecto interpretável que tornam claras e pertinentes determinadas interpretações numa determinada posição quer no espaço quer no tempo.

O livro das Escusas (4)


IV.
82. Sendo toda a acção falsa, a unica forma de lhe escapar é discriminá-la.
83. A acção é crime. A discriminação descriminaliza.
84. A acção tem diversos modos de re-presentação, que traduzimos em percepções, sensações e representações (num sentido mais técnico).
85. A re-presentação supõe uma presença. A presença é a próximidade, a capacidade de focar, de saír do desfocado. Saír do desfocado é discriminar.
86. Há numerosas incertezas sempre que há discriminação. A ambiguidade faz parte da acção. As representações tentam suprimir a ambiguidade porque tendem para a não-acção.
87. Esta discrepância entre a acção e a representação gera erros, duvidas, desvios, extrapolações, etc.
88. Não devemos ser demasiadamente assertivos nem opinativos.
89. A complexidade da acção, mesmo na sua intrinseca falsidade, só pode ter uma representação mínimamente adequada se esta for complexa e se nela estiverem ressalvadas as ambiguidades.
90. No caso de uma acção de dificil identificação, nenhum juízo deve ser emitido. A prudência interpretativa leva à indiscriminação dos agentes.

O livro das Escusas (3)


III.
73. Passamos a definir a esfera de acção que nasce da escusa à grande escusa.
74. Só há acção se o criado se deixar animar, ainda que «fantasmagoricamente».
75. Entre o animável conhecido a espécie homem é a mais complexa e dotada de atributos.
76. Todo o animavel está sujeito a 3 modos de acção: o kairos (o tecido punctiforme do tempo que determina todos os actos) que é comum a todas as bestas; a métis (o engenho, a intiligência prática que contém a intiligência reflexiva e desnudante) que é especifica do homo faber; e o enthousiasmous (a interface possessiva/despossessiva) que gere a relação entre o homem e as suas experiências com os daimons (deuses, ideias, vacuidade, etc).
77. O kairos é como o karman, é do dominio exclusivamente material (da prakriti). Faz circular actos e gestos e encadeá-los como uma teia. A percepção do kairos é a do próprio tempo como propício ou nefasto. O kairos prepara a gestão dos sinais que dão indícios e tenta maximizar as estratégias e táticas. A optimização da predação é o que fez nascer o kairos.



78. A métis é a mente ardilosa, sendo específica dos homens mas pouco comum entre eles. Na métis destaca-se a arte de formar planos, de fabricar coisas e de mentir. Os seus casos heroico-mitologicos são o Ulisses do cavalo de troia e o Krishna que gere o desfecho do Mahabharata. O inventor, o escritor de ficções, qualquer semeador de ilusões, possui esta virtude rara.
79. O enthousiasmous é mais comum que a métis, mas o seu domínio é mais subtil. Todos os homens são dotados de métis, todos são capazes de fabricar e de mentir. Do mesmo modo o enthousiasmous é comum à espécie: é a sua capacidade para negociar com o divino, submeter-se-lhe, identificar-se com este e até vergá-lo ou superá-lo. O divino ou sagrado é o que é ora «luminoso» ora absolutamente terrivel. Usualmente é visto como «sobrenatural», pois as experiências a ele associado tem tendência a fugir às regras da «matéria». Todas as ideias e pensamentos têm um vínculo com os daimons.
80. Os actos perseguem os actos. Cada acto actua não só sobre os actos consequentes como sobre os actos precedentes.
81. Um acto pode obter tanto a redenção quanto a prevenção.

O livro das Escusas (2)


II.
48. Muitas escolas gostam de admitir, como consequência argumentatativa, que o 0 é identico ao múltiplo e à inconsistência da ilusória rede de causas.
49. Esse erro é reconfortante para o comum dos homens e facilita a prática e a propaganda. Nós refutamos esse erro.
50. Não pode haver identidade entre uma halucinação contínua e aditiva e um estado incondicionado, nem a nível da lógica, nem a nível conceptual, e muito menos metafórico.
51. O pensamento concebe com facilidade a eternidade, tal como concebe o infinito. A eternidade é como um tapete desmesurado e um tempo estupidamente inacabável.
52. Essa facilidade só prova a falsidade de noções como a eternidade. A eternidade é um argumento fast-food que supõe a ideia de um consumismo desbragado.
53. A prática da abstracção destroi os detalhes. A prática da meditação destroi os fluídos icónicos.
54. A alma (o que anima) é outro objecto de consumo que ainda está presa aos detalhes e depende daquilo que ela é: movimento (anima).
55. É fácil a identificação parcial ou total da alma com o Absoluto, como um desejo ardente ou uma humilhação masoquista, desde que esse Absoluto dê uma imagem de intensidade ou expansão.



56. Não há dignidade em nenhum desses actos. Na Anestesia não se valoriza nem se humilha. A dignidade (embora este nome seja desnecessário e postiço) é integral no acesso ao incondicionado.
57. A alma é pois um anexo do Absoluto, uma pequeníssima parte, um mínusculo movimento inferior dentro do suposto grande movimento de expansão.
58. A identificação entre o pequeno animado (a alma) e o grande animado (o Absoluto) é possivel porque partilham a caracteristica da animação. A diferença é de escala.
59. Há uma tendência em supor que a origem de tudo é uma mistura de animação e abstracção.
60. A expansão é desgaste. O poder desfaz-se no manifestar-se porque a escusa e a anestesia são permanentes.
61. O absoluto pressupõe um contra-absoluto, uma irredutivel Negativitude.
62. A interface entre a plenitude e a negativitude é o tempo.
63. A vacuidade, limitada ou ilimitada, é o suporte do absoluto e do animável. A vacuidade é como uma ausência elástica que se estica desmesuradamente. Vai fazendo espaço.
64. Há processos mentais que se encaminham para a abstracção, isto é, o desnudamento estrutural numa primeira fase, e a superação desse desnudamento através de uma apologia do inefável, como se houvesse uma recusa profunda de falar do que quer que seja.
65. A vacuidade é muito semelhante a essa abstracção.
66. A vacuidade não pode ser animada. Apenas supõe espaço de animação.
67. A pequena animação está destinado a fundir-se com o Absoluto ou aniquilar-se na vacuídade.
68. O significado é a aquisição intersticial que opõe a alma à sua hipotética aniquilação.
69. O significado tende para o Absoluto e procura-O com um desejo ardente, numa animação progressiva.
70. Como em todo o desejo, que é «sexual», a animação aumenta e a sua aceleração é crescente. À progressão do pequeno animado para o grande animado chamamos extase.
71. O Absoluto quer e não quer aniquilar-se.
72. Essa fusão do Absoluto com a Anestesia apenas se entende como vontade de renascimento do Absoluto. O 1 passa pelo 0 para ser um 1 mais revigorado e mais intenso? Ou é apenas a necessidade de frescura, de um recomeço?

LIVRO DAS ESCUSAS (1)




0 (=) 0

I.
1. O que não é causa nem causador, nem dos outros, nem de si mesmo.
2. O nome que se lhe dá é Anestesia.
3. Tudo o que dele se pode dizer é um equívoco, e dele não se deveria falar, mas é ele que se deve pensar, se bem que nele nada seja pensamento.
4. O pensamento na sua nudez mais intensa, obscessivamente, sem interior nem exterior, sem qualquer tipo de encenação ou acção.
5. Nem imóvel, nem em actividade: equilibrio absoluto de um ignoto.
6. Todas as qualidades não passam de escusas, más desculpas para a não-aceitação de uma nulidade que não se reconhece nesse nome.
7. Toda a causalidade é um equívoco.
8. O maior equívoco entre esses equívocos é a suposição de uma causa primeira à qual se sucederiam causas outras, filhas, enteadas, degradações estruturantes de um modus operandi incessante.
9. Só o inacessível é desejável.
10. O que é desejável não se deseja a si mesmo, nem se odeia.
11. Seria fácil dizer que é desprovido de qualidades ou que só as podemos enumerar negativamento como na teologia do Areopagita.
12. Essa enumeração do negativo é, apesar de tudo, um rastilho de qualidades.
13. Teremos que negar e voltar a negar todas essas negações para ter um vislumbre do que é uma Escusa, o que não se dá nem deixa de se dar.
14. O Ser é o Ser. A equação pode-se formular como 1 = 1. Na unidade só há o completo e nenhum inacabado. Henologia que face ao mundo se tornou mole.
15. O Um acaba sempre por condescender à multiplicidade, e o «mal» que levou a isso é usualmente mal explicado.
16. O Não-Ser nem sequer é a oportunidade de um dia vir a ser. A sua equação é impossível e desnecessária. Erradicada porque errada.
17. Há no entanto espaço de manobra, não para o não ser, mas para o facto de o 1 suscitar a sua sombra matemática, a sua negatividade, o -1.
18. O -1 é identico a si mesmo, e pode ser explicado como sombra da nulidade absoluta.



19. A negatividade é tão presente quanto o que é determinante. Os principios são distintos e é mais facil aniquilar o «positivo» e a causalidade utilizando os métodos da negatividade do que utilizando a dedução que só reforça o ilusionismo causal.
20. Essa explicação faz sentido porque a formulação rigorosa do princípio da nulidade é de que 0 (=) 0. O traço de igualdade deve ser posto entre parenteses, porque não há possibilidade sequer de auto-identificação quer externa quer interna. O 1 implica o -1.
21. Dado que esta é a única certeza, toda a presença supõe a sua anulação. Assim toda a causa, superior ou inferior, entra em jogo com uma contra causa.
22. Qualquer presença supõe a sua degradação, assim como a dos outros.
23. O mundo é o espelho da sua negatividade.
24. O ainda não ter nascido dá-nos uma ideia mais completa da nulidade do que a consciencia da mortalidade.
25. O passado é a encenação de que há causalidades. Mas o passado é algo que é externo e que as criaturas tentam absorver de modo a demonstrar a existência do tempo.
26. O tempo é uma ficção que mata. A morte, como acto, é outra ficção.
27. A anestesia é anterior não só ao ínicio dos ínicios, como a qualquer hípotese abstracta de pressuposto estrutural.
28. A relação da anestesia consigo mesma provoca a ilusão de plenitude, de absoluto, de unidade, de causa suprema.
29. O Um é a ilusão antes de todas as ilusões. A totalidade, assim como a alucinação intensa que dela decorre, deve ser despromovida à categoria do Absoluto.
30. A linguagem procura sistemáticamente levar-nos nessa direcção porque a linguagem só se justifica como sentido.
31. O fundamento da linguagem é o «não-não-dito».
32. Pelo contrário, a música e as imagens não nos permitem tão fácilmente tais extrapoloções embora estas formas de expressão estejam submetidas a outros atractores («a música procura o seu fim, adiado ou inadiável»; as imagens tendem a respeitar a «gravidade»).


33. A lógica «intuitiva» deixa-nos ser mais claros do que a gramática ou a lógica formal porque nos permite escapar a regras que limitam o pensamento.
34. Se a divisão da Anestesia por si mesma gerou a Plenitude e o Absoluto como uma miragem, foi essa miragem que instaurou a sequência das causalidades fictícias e o mundo como pesadelo.
35. Para suprimir esse pesadelo é necessário suprimir gradualmente a causalidade.
36. Os graus que concedem essa supressão começam nos niveis inferiores, onde há mais variedade e singularidade, passando de seguida aos principios estruturantes e, finalmente, à causa primeira.
37. O acesso ao Um por si só não tem um efeito libertador. Há que fazer a passagem à relação que engendra o Um e suprimi-la através de uma rigorosa disciplina meditativa.
38. Enquanto há relação há dor. A ascese verdadeira consiste em suprimir não só a relação como a não-relação.
39. Com essa supressão desaparece igualmente o continuo e o descontinuo, o instante e a eternidade.



40. A dificuldade em fazer esse retrocesso está no apego.
41. O apego explica-se através do próprio apego, ou se preferirem, vício.
42. A relação adictiva com as coisas é como um círculo vícioso.
43. A via de emancipação consiste na recusa dos influxos perceptivos, dos estados emotivos, das imagens intelectivas e das tentações de extase ou enstase.
44. Devemos falar de uma «potência» ínicial de anestesia, apatia, aniconia.
45. O pensamento e a meditação são intrumentos nesta primeira fase que nos facilitam a superação destes flagelos.
46. Numa segunda fase a meditação suprime o pensamento entrando num contínuo meditativo.
47. O difícil é suprimir esse contínuo e a própria meditação.

DOXA SUTRAS (incompletos)





(do strip-tease do Intelecto)


1. A doxa passa a ser tretificada a partir de agora!

2. A doxa é uma droga que suprime as confusões mentais, ampliando as capacidades perceptivas e acelerando as metamorfoses do intelecto.

3. A doxa é a modificação das modificações. Só modificando as modificações é que Absoluto se entrega como uma cadela ao seu dono.

4. Essa entrega e vulnerabilização implica a categorização dos estados metamorficos do intelecto, isto é os modos das modificações.

5. Esses estados metamórficos são básicamente cinco. Poderemos considerá-los como hedónicos ou controversos.

6. Eles são: gosto, errância, contraindução, fantasia (contra-ser) e anamnése.

7. O gosto é formado pela experiência, influência, ab/de/in/ducção e tradição.

8. A errância é o apetite pelas aparências ilusórias e pela busca das excepções.

9. A contrainducção é a formulação de hipoteses a partir de um jogo em que há um strip-tease conceptual prévio. Despe as teorias aceites para formular hipoteses mais sedutoras.

10. O estado metamorfico chamado fantasia consiste na produção e na cognição do inexistente e na exploração do negativo. Dá-se em estados como a visão e o sono, que são privados de ser e não podem ser partilhados.

11. A anamnése é a metamorfose dos arquivos e a deambulação nas entranhas das histórias, como aparente retrocesso ao «absoluto».

12. Pela discriminação persistente e pela prática concentrativa podemos fixar estes estados metamórficos de forma a que por eles não sejamos possuídos. A sua fixação é quase canónica.

13. Quem quiser suprimir a interface com o Absoluto deve procurar a estabilização de todos os fluídos através de uma disciplina de ferro. A isso chama-se a prática. É necessário suor, paciência, persistência, etc.

14. A prática persistente e ininterrupta devora todas as infirmezas. A entrega total faz com que as raízes deste processo sejam inabaláveis e o homeosesteta se transforme num superartista.

15. Quando o engenho faz com que o pensamento se subtraia aos objectos (dominando os desejos, que mais não são do que imanente literatura mediocre), logo conquista um estado de poder sobre a mecânica libidinosa e emancipa-se das solicitações ilusórias.

16. As solicitações ilusórias até que nem são más.

17. A deferência perante as determinações físicas e biológicas, e a concentração no Absoluto e incondicionado é denominado o Esforço Tretatérico.

18. Quando a concentração atinge o seu pico de máxima intensidade através de uma série de mecanismos e fórmulas, e não há distinção entre o que concentra e o Absoluto, a esse estado chamamos Kavod.

19. Budonga é o outro tipo de fusão sem interferência de método ou de objecto. Budonga dá-se espontaneamente. Dispensa perliminares ou esforços. Também não se chega lá com drogas de má qualidade.

20. O Homeoadepto usando o calor do seu entusiasmo e a concentração consegue entrar num estado de fusão interior-exterior. Será que lhe sobrevive?

21. Todas as conclusões que estão para vir devem ser rejeitadas.

22. A Tretificação ficou incompleta. Não podia ser de outra maneira.

23. Se fosse de outra maneira seria o místico. Mas como não é o místico não pode ser nem de outra maneira nem o místico atrás mencionado.

24. Não aceitamos reclamações.

ANOMALOLOGIA





1. O mundo é uma anomalia. Essa anomalia não é composta nem simples, mas complexa. Dizer que é simples ou composta seria reduzi-la a elementos simplificados e a uma arte combinatória.

2. Podemos categorizar estados da anormalidade, como excepções que procuram uma ordem. O estado embrionário das coisas é a desagregação. O que se agrega é passível de ser figurado. Os momentos de agregação são as poucas coisas que conseguimos representar.

3. A natureza é descontínua e divisivel. Há nela elementos repetitivos e semelhanças, mas nenhuma equivalência rigorosa. Há mais semelhanças a nível dos elementos microscópicos. A uma escala maior apenas podemos estabelecer homologias e analogias.

4. A dissolução dos seus agregados possibilita a creatividade e a transformação. Os elementos mais infimos são indestrutíveis porque inconsistentes.

5. Os elementos mais simples não são todos identicos. O seu número é reduzido. A sua identidade não pode ser alterada.

6. Esses elementos não se espelham uns aos outros e a sua cooperação faz-se de formas diversas. Pode-se dizer que a formação de agregados é espontanea.

7. A maior parte dos agregados é anómalo.

8. Há mais vazio, destituído de particulas, do que cheio.

9. Há muitíssimo mais «matéria» incapaz de produzir ou reproduzir do que matéria sujeita à inércia e desagregação.

10. Os agregados que crescem e se reproduzem são uma anomalia secreta dentro da anomalia moribunda do mundo.

11. Entre os organismos vivos a consciência é rara, insuficiente, delirante e simplificadora.

DO BALBURDIANTE (pequeníssimo tratado)








1. O mundo não é o todo do agora, mas a pressão do balburdiante sobre o já.
2. O mundo não é necessáriamente único ou passivelmente múltiplo. O mundo é algo que se di-verte e se oferece, independendentemente de qualquer representação.
3. Logo: o mundo é o per-verso.
4. O perverso, ao invés de propor uma origem e um fim, repõe a convicção de que só podemos falar da balburdia actual.
5. A projecção de genealogias, teleologias ou enciclologias pode servir para construir ficções genésicas, apocalipticas ou recursivas pondo alguma ordem na balburdia perversal, mas de pouco adianta.
6. A aceitação da anarquia balburdiante do perverso induz à destotalizarização das percepções.
7. O perverso tende a organizar-se/desorganizar-se espontaneamente em agregados enquadrados por esquemas.
8. Alguns desses esquemas insistem na sua reprodução.
9. Um agregado não é uma totalidade ou unidade mas um padrão de conveniências. Os elementos singularizáveis que o podem compor não se chamam partes.
10. A singularidade simples é apenas a divisão de um multiplo heterógeneo.
11. Um «corpo» é um agregado esquematizado dotado de alguma autonomia.
12. Todos os corpos têm tendência para a desagregação e para a reagregação noutros corpos. Isso é a transmutação.
13. Os agregamentos/desagregamentos surgem por graça de uma anarquia amatória/odiatória.
14. No perverso tudo é animado, isto é, todo o agregado está condenado à animação e é origem de animação. A animação é a interdependência das com-gregações.
15. Todos os agregados se agregam entre si em formas de humilhação, dominação, coperação, destruição, etc, desdo os mais minusculos aos mais maiusculos.

BUDDHA BINGO








# 1. There’s no Bingo like Buddha. There’s no Buddha like Bingo! – disse o mestre. Duração, origem, destruição, sendo, não-sendo, baixo, alto, igual, diferente, moderado, exagerado, mediocre e excelente são meras tretas que a convenção nos impinge! Não há peremptóriamente nenhum sentido absoluto! Também não há sentidos relativos! Nada faz sentido! Isto não faz sentido! Tal é, ó futuros buddhas, o caminho da libertação!

# 2. Todas as proposições são sem significado, quer para o eu ilusório, quer para os eus desiludidos, quer para os não-eus, quer ainda (e in extremis) para os não-não-eus. Tal como essa cena do nirvana, o que se exprime está vazio de conteúdo. A expressividade da forma é consequência de não haver formas mas apenas miragens transicionais. Mesmo o puro vazio é irrelevante.

# 3. Se a todas as coisas falta realidade, ou causas, ou consequências, ou possibilidade de inferência, ou circunstâncias (verdadeiras ou falsas), é porque as coisas, despidas de todo o totalitarismo e da consciencia enganadora, estão vazias não só de qualquer coisa, mas até do vazio.

# 4. O Ser nunca foi ser nem não-ser mesmo na sua aurora dita gloriosa. Nada se opõe a nada. O que se deita e se levanta é heterógeneo, fluído. A inércia da matéria deve-se a circunstâncias locais, à magia particular do nosso patêgo e suburbano planeta.

# 5. O que nasceu é indestrutível, está aí, como um pescoço de girafa, para a admiração de todos. O que ainda não nasceu já é indestrutível. Não se pode destruír o que nasceu porque não está (não acampa com nenhuma glória). Quanto ao que não nasceu, a sua insignificância só pode ser sentida como insignificância e como promessa de nunca vir a ser.

# 6. Uma causa procura muitos efeitos. Muitas causas procuram algum efeito. Os efeitos não existem, só existe a lógica absurda dos efeitos. A lógica dos efeitos é como um efeito, mas não passa de consciência. Entre todas as coisas ilusórias a consciência é a mais enganadora.



# 7. Sem a singularidade a multiplicidade é uma barraca de feira. Sem a multiplicidade a singularidade nunca terá direito a cidadania entre as lubricidades intelectuais. O que se desoculta indetermina-se. A indeterminação é como os cavalos que puxam a carroça da inconsistência.

# 8. Se houvesse alguma determinação ela ainda não teria sucedido, porque para suceder seria necessário que fosse comunicável. Para que fosse comunicável teria que saír da esfera da mente. Para saír da esfera da mente seria imprescindível que ela existisse. O que se provou que não acontece.

# 9. O permanente é uma treta. A impermanência é uma tanga. Os sentidos são prerversões de não-conjunturas. Nada tem identidade. Nada tem não-identidade. Nada tem não-não-identidade. Prazer, sofrimento, tédio e ângustias existênciais não passam de má quimica num laboratório inexistente.

# 10. Os sentidos são ignorância. A experiência não experimenta. As forças formativas nada formam. A natureza é uma tapeçaria cujos fios são nada.

# 11. A ignorância não tem sucesso nem sucede. Não há atributos pré-establecidos. As forças formativas não desocultam sequer a vacuídade.

# 12. Como é que algo pode derivar do inacessível? As circunstâncias não têm a oportunidade de ser circunstâncias. O acaso também não pode ocorrer onde nem sequer há causalidade.

# 13. Um pai não é um pai e muito menos um filho. Nada coexiste nem com os outros nem consigo mesmo. Não há relações nem correlações, nem identidade, nem simultaneidade.

# 14. Para haver objectos reais deveria haver objectos irreais. Mas não há. O aprazível e o desagradável seriam estados sensoriais relativamente a objectos. Faltando os objectos não é possível buscar sensações nem filtrá-las pelo desejo e pelo medo. Há demasiada falta de dependências.

# 15. Reclamação: mas então são as próprias sensações que constrõe objectos imaginários (nem reais nem irreais) para deleite sensorial. A mente, ainda que inconsistente procura o luxo da expressividade ao desenhar objectos e mundos, assim como causas, categorias e lógicas.

# 16. Rejeição: Para que as sensações existissem seria necessário que houvesse objectos reais ou irreais porque deste modo haveria uma capacidade de construção que requer atributos. Também seria necessário que a mente fosse mente, e para a mente ser mente ela já é algo, real ou real. Tudo isso é falso. Logo a mente, as suas hipotéticas construções e as sensações derivadas não se devem ter em conta.

# 17. Será que o não-ser pode ter o seu direito a habitar? Diferencia-se? É um não-habitar? É um mal-estar? O não-ser nem sequer é um não, nem um ser. A negação não passa de uma subtileza lógica destinada a filtrar o in-filtrável. O ser é uma palavra inócua inventada pasa agregar tudo de uma forma tirânica. Mas falta o in-filtrável e o tudo. Assim, quer o não, quer o ser, quer o não-ser, devem ir para o caixote do lixo.



# 18. Reclamação: se falta ser e não-ser, e até a negação, como é que há emergências e caducidades. Porquê esta sensação de que somos a periferia de uma coisa mal formada?

# 19. Rejeição: as emergências e as caducidades seriam atributos ou do ser ou do não-ser ou da interface entre ambos. Mas, como observamos, estes não passam de construções mentais enganadoras. Se uma emergência é um começar a ser e a caducidade um deixar de ser, então estes termos são metáforas inadequadas para explicar o que não precisa de ser explicado.

# 20. Sem presença não há ausência. A sensação de falta mostra que a presença não é sufientemente presente. A sensação de falta só indica que não há presentificação em nenhuma presença. Não é sequer o não estar. É o nunca ter estado.

# 21. Se existisse o que está, ele quereria continuar a estar e seria imóvel e incorruptível. Mas há quem diga que a aniquilação acontece e incendeia tudo. Qual destas situações a mais falsa? Ambas e nenhuma.

# 22. A opinião (a doxa) pressupõe o contínuo. Se houvesse descontinuidade nada transitaria para nada e seria impossivel formar uma opinião pois os actos funcionariam como singularidades sem transição e sem congruências de causalidade.

# 23. O grande Bingo faz com que a continuidade e a transitoriedade desacelerem. Mais do que proclamar a vacuídade como um slogan estupido ou um ensinamento sofisticado a doutrina visa pôr a nú as metáforas que nos empurram para o carrossel das subjugações e sofrimentos.

# 24. Mas o sopro de liberdade também não é isso. As metáforas não moldam a natureza. Como é que elas poderiam moldar a não-natureza. A substâncialidade é o esquivo.

# 25. O nirvana é uma fuga. «É fugindo que nos rencontramos». Se ele fosse uma supressão radical tudo seria destruído. Ora nada é destruído ou não-destruído. A ilusão continua a sua dança. O sábio retira-se dessa dança.

# 26. Uma retirada definitiva deixaria a ilusão ao seu abandono, isto é, dissolver-se-ia com todos os budas do presente, do passado e do futuro. Porém o sábio contempla-a. Um nirvana sem nada para contemplar seria um tédio.

# 27. O mercado condiciona a libertação. A libertação é o negócio supremo, com ou sem dinheiro. O que liberta também subjuga. O sábio procura menos um status de libertado do que se desfazer das leis do mercado. Também é certo que para uns o mercado é o nirvana. Será?

# 28. As explicações vêm ter connosco, por isso as enunciamos como se fossem lâminas cortantes: causas, efeitos, sentimentos, o visível, o invísivel, etc. Não tememos os pesadelos teóricos porque rápidamente nos desembaraçamos deles. O intelecto é um instrumento, ainda que desmesuradamente incongruente. Nós pulverizamo-lo. Os conceitos saiem afiados, sem medo, rápidos.

# 29. Os três tempos não existem e muito menos a aglutinante eternidade. Não há reciprocidade, não há transição, não há passagem, não há sequer um oceano desmesurado de tempo que abarque todos os instantes. Não há grandes ciclos, nem origens ou climax. Não há não-tempo. Nem tempos descontinuos, nem regressos. Todas estas formas de pensar o tempo são hipoteses brejeiras.

# 30. O condicionado é como um supermercado dominado por três marcas: origem, duração, e cessação. As criaturas são consumidoras de produtos inexistentes. Só existe o pacote com a marca e a descrição. Existe um vício. A melhor droga é o vazio.

# 31. O vazio é indestrutível. Como é que pode o que não é ser destruído? Também o que está aí não pode ser destruído, por mais originado ou criado que possa parecer. Uma vez que o vazio é substância de todas as coisas como é que elas podem realmente ser criadas ou destruídas?

# 32. O que se compõe e decompõe não admite a multiplicidade e muito menos a singularidade ou a pontualidade. Haveria o estando, o não-estando e o não-não-estando, e assim sucessivamente. A composição é como uma projecção de um filme: se iluminada desaparece, se obscurecida, também desaparece. Tudo se passa entre estes dois limites.

# 33. Mas, dirão os detractores, os actos empurram para os actos, e o grande mestre falou e falou da sequênciação dos actos e de como estes condicionam a sua própria cessassão, assim como o frete dos renascimentos. Só o acto pode destruir o acto. Só a causa pode suprimir a causalidade.



# 34. Ao que respondemos: se os actos fossem actos eles poderiam suprimir-se. Mas os actos não são actos. Ninguém morre ou renasce. Como pode cessar o que nunca esteve em movimento? Como pode ser acto o que nunca foi potência. A própria defenição de acto implica uma carência fundamental. O mestre falou em parábolas e as suas parábolas jogavam o jogo dos supostos actos. Os actos são opiniões. A discriminação não suprime opiniões. A opinião, a doxa, é que é essencialmente pseudos, fumo de fumo. Como é que poderiamos levar à letra as opiniões como dramaturgia concreta?

# 35. Se os actos ou as interpretações fossem essências ou corpos, a criação seria permanente e consequente. Caso houvesse actos o sofrimento seria possível assim como a sua cessassão. Mas o sofrimento é impossivel, inacessivel e sem origem ou fim.

# 36. Os actos não são fortuitos nem situáveis. É certo que lhes atribuímos formas e predicados. Aquilo a que chamamos actos são fumos de fumos, imagens que se formam a partir da inconsistência da inconsistência, como quando se fuma òpio.

# 37. Os actos têm as doxas como pro-vocações. São estas opiniões-opiadas que dão lugar, como numa cosmologia platónica, às formas e à suposta materialidade. A forma e a matéria são os denominados corpos. Os corpos seriam frutos dos actos. Mas o acto só é possivel pela acção. Ora, dado que não existe acção, não há corpos.

# 38. Sem acto não há actores. Sem actores não há representação. Sem representação nenhum deleite.

# 39. Mal nos apercebemos que os actos estão vazios de actores, de representações, ou do que quer que seja, o acto esgota-se e a ilusão dissolve-se. Mesmo as miragens deixam de ser hipotéticamente consequentes. O acto não volta a regressar.

# 40. O próprio libertador é uma alucinação de uma alucinação. O nirvana é uma droga identica à roda dos actos.




# 41. O descondicionador é mais do que vago. Não passa de um nome convencional, de uma representação sem suporte, de um significado absurdo.

# 42. Nada nos é dado para além do vício das aparências a que teimamos chamar natureza. A natureza não tem um significado secreto ou uma consistência discriminável. Só falamos dela através de convenções.

# 43. As convenções não são actos, mas meras actas. A convenção é o que nos convence dos actos. Temos que nos desconvencer e desconvencionar.

# 44. O uso de negativos em linguagem indica uma firme convicção que mina toda a confiança na linguagem. Não é muito difícil de compreender e de tirar as conclusões.

# 45. Se a imaginação é possivel, e as coisas imaginadas não são coisas nem não-coisas é porque tudo é imaginário. Mas a imaginação para ter imagens para se alimentar teria que se alicerçar em coisas e em actos. Porém, como a imaginação supõe que não há coisas nem actos para lá dela, teremos que concluir que a imaginação também é uma coisa imaginária.

# 46. Tratando-se tudo de uma virtualidade pura, apenas nos apercebemos das virtudes da virtualidade. Não há nenhuma realidade para além dela. É impossível que essa virtualidade se torne consistência, matéria ou corpo. Só podemos imaginá-los virtualmente.

# 47. A imaginação imagina a imaginação. Daí se depreende a flatulência generalizada das coisas e dos conceitos.

# 48. Haverá sentidos finais ou inescapáveis? Ou apenas nos concebemos no intervalo da multiplicidade das imaginações imaginando-se? Confiamos nas convenções, mas nenhuma delas é de confiar!

# 49. Como poderiamos confiar nas palavras do próprio Buddha? Não são elas convenções inexistentes? Ele ensinou o Dharma, que também não passa de uma encenação vazia para um palco imaginário onde não há actores nem espectadores. Não há pungência nos seus discursos. Os seus sutras nunca foram por ele proferidos. A que é que nos poderemos segurar? A nada nos podemos segurar!

# 50. Se procuras mais um produto vulgar que te dará a felicidade, desengana-te! Sem pontos de apoio, sem ilusões, sem convicções profundas ou fés brejeiras tudo parece condenado a uma ângustia. Mas o nada nada tem a temer. A libertação não chega porque a subjugação é inconsistente. O amanhã glorioso não sorrirá porque já nos falta o hoje. A paz que buscas é tão ilusória e inexistente quanto a ânsiedade com que a procuras. Quanto mais a buscares mais acentuas a ânsiedade e menos a encontrarás. Por isso nada é buda. Por isso somos o nirvana ébrio de nirvana ou samsara farto do samsara.

DA INDISCRIMINAÇÃO







A meditação é a Métis despida de percepções.

Mahabuda da Tangória


1. Quer a miséria quer a abundância provocam um choque que leva à retracção e à multiplicação dos meios da glória ou da secagem. Este é o inquérito indiscreto desses caminhos. Toda a inquirição é um suplemento, uma floresta superflua de causas. O desiquilibrio resultante do choque supramencionado requer, mais do que consolo, remédio. O remédio só pode vir como teoria visivel ou visibilidade teorica. As imagens, embora de duração limitada, abrem-se à impermanência. O espirito fixa nos seus arquivos o que na retina é apenas passagem. O catálogo das imagens curativas é a Doxa.

2. A teoria é a encenação estrategica dos meios visiveis. As táticas que revela estratificam-se em sequências modais. Os aspectos revelados tanto podem ser calmantes quanto salpicados de colorações destrutivas e excessivas. A teoria tende a distinguir-se de si própria. É krisis contra as suas asserções mais fluentes. Difere-se em si, para si e contra si. É este o método superior que permite o entranhamento cognitivo nas coisas e a discriminação do manifesto. Quanto ao ainda não manifestado (ou imanifesto), só pode ser advinhado como possibilidade sequêncial. Conhecer, é acima de de tudo categorizar hipoteses sequênciais que se adequem ao manifestado, ao manifestando e ao manifestável.

3. Consideremas a massa original no seu estado imberbe como possibilidade desmassificadora. Como raiz antes da produção e do mundo como reprodução desmassificante. A raíz não sendo improdutiva é um não-produto. Os sete princípios generativos surgem da Megamétis, o intelecto pragmático, a suprema astúcia. Os sete principios são produtos e produtivos. Os dezasseis principios são meros subprodutos. Há no entanto uma entidade antes da krisis que não é nem um produto nem produtiva. É a homeostase absoluta. As explicações para o aparecimento da krisis (o mundo como distinção e multiplicação) são insatisfatórios, e as hipóteses um engodo. O mundo não precisa de justificações para a sua a origem ou para a sua morte. O sentido só pode ser assinalado como aquilo que é e não de onde pode ter surgido ou como estagnará. No entanto, a homeostase que antece a krisis, repõe, como algo magnético, os desiquilibrios fecundos que nascem quer da acelaração criativa, quer das degradações sucessivas. A prática das formações e deformações do mundo é a Homeostética.

4. Embora a percepção, a inferencia e os testemunhos sejam reconhecidos como provas dúbias não poderemos deixar de recomendá-los como atenção que leva ao opinativo, isto é, à formação de doxas, por mais liberais que estas sejam. Mais do que meras provas circunstâncias de hipóteses fecundas necessitamos das resistências das provações. Uma prova, mais do que uma certeza é uma recomendação e uma endoutrinação. Os meios de demonstração tornam persuasivas e eficases as provas. Tudo deve ser provado de modo a que as causalidades não fiquem em àguas de bacalhau. O rigor das provas torna mais consistente a teatralidade de todas as acções naturais e artificiais.



5. A percepção é a permeabilidade à circulação das coisas. É a possibilidade das criaturas se deixarem afectar de um modo periférico ou consciente pela rede de ruídos (intensos ou suaves) ou por signos identificáveis. As inferências e os aferimentos são a priori interferências. Nós somos o espelho do mundo (microscópico ou macroscópico) assim como o mundo é nosso espelho. O conhecimento é não só a marca de quem o possui como uma acção diligente sobre o estado das coisas. Os testemunhos tornam o testemunhado fiável. As revelações tornam o mundo uma revelação.

6. A percepção é uma rede de interferências. As coisas que se deixam apreender pelos orgãos sensorias são simplificações de um ruído de fundo. Essas simplificações são sugadas por mecanismos esquemáticos que as fixam na memória. A percepção implica um filtro «representativo». Não há presença pura. Os filtros representacionais nascem de atitudes predatórias, defensivas, guerreiras, disuasivas, etc. A ideia de testemunho é a de um ciclo de guerra que se consolida num conjunto de imagens estáveis. A ideia de revelação é a de instabilidade imaginal.

7. As lacunas perceptivas devem-se à fadiga da digestão sensorial e à impossibilidade de haver um continuo entre o interior e o exterior. A proximidade e a distância acabam por ser formas de apreensão distinta e a distância está sujeita a um leque de ambiguidades muito maior. A instabilidade provocada pela distância leva a jogos mentais complicados que provocam lacunas e confusão. O desejo de diferença e subtileza é um factor no afinamento dos sentidos, mas também consome mais tempo, obrigando a suprimir dados desfocados. A instabilidade mental é gerada devido à superabundância das percepções de todo o tipo. Qualquer focagem obdece a uma bricolage estratégica, a uma escolha que é da ordem da economia, da sobrevivência ou do prazer, embora possa haver outras causas.

8. Os seres são os clientes do mundo. Supõe-se que há uma materialidade dada que os esquemas mentais tentam despir. O sujeito é a interface entre os esquemas e a materialidade. A não-existência é entendida como limite da desagregação. Por isso a intelecção procura a subtileza e as diferenças. Organizar é sobreviver, é extremar as nuances para melhor resistir aos efeitos desagregadores. A intiligência é um dado coexistente à materialidade dada. Não há diferença essencial entre estes dois termos senão como distinção categorial. A intiligência consciencializa-se na capacidade de assimilar os similares e dissimilares. O mundo, que era não-engendrado, tende a cohabitar com as representações nascentes dessa assimilação.

9. Há uma causalidade difusa que é a que opera as grandes mutações e onde há alguma indeterminação, e há uma causalidade entranhada que é a subjugação dos seres e coisas às suas necessidades específicas e que é a servidão aos limites das suas «familias». A singularização e a vontade de marcar diferenças pode abrir possibilidades de mutação que não se tornarão indiferentes às outras criaturas. Quanto ao que não se deixa existir não pode ser arrastado para a esfera da existência nem para o turbilhão das manifestações.

10. Os efeitos são o sumo de causas apropriadas. Uma causa torna-se apropriada quando é propícia a que os efeitos se tornem propriedades. O que vai sendo é graças aos meios que se disponibilizaram para essa ida. A natureza procura a produção como forma de resistir à uniformidade e à nulidade. A aniquilação reduziria o manifesto ao inmanifestável. A uniformidade enlataria o mundo numa sopa unitária e anestésica.

11. O que se manifesta é fruto de uma produtividade cujos agentes estão em metamorfose. Muitas vezes as causas simples são admissíveis e pertinentes, o que não quer dizer que não possam acontecer infracções e excepções a esse tipo de causalidade simples. O facto de haver uma causalidade admissivel permite-nos formar padrões de percepção e de comportamento e deslocarmo-nos entre as coisas com confiança.

12. O que se deixa perceber como causável tende a a degradar-se, apresenta-se como delimitado, sujeito a metamorfoses e capaz de se dividir. É contextualizável e dependente de um determinado meio. Deixa-se apanhar na teia das projecções perceptivas através de representações nas quais se tenta classificar. O que agrega é passivel de ser identicado como proporção de componentes. Está inserido num conjunto de forças estáveis que lhe atribuem um papel na circulação das coisas.

13. Ao que resiste à participar na rede causal e a degradar-se como manifestante não se aplicam os anteriores atributos.

14. O manifesto é um entrançado de três agentes: o unitivo, o refractante e o indiferente. A natureza enquanto dada é o não-indivisivel. A descriminação que a ilumina tem que a negar e negar a negação. A natureza é «abjectiva», fluente, prolífica, inconsequente. Os esquemas e formas pelos quais se deixa possuir são-lhe co-existentes, como um outro lado da medalha. São similares na medida em que sempre que um difere o outro o segue.

15. Os agentes entrançantes também podem ser designados de hedónico, dolorista e ataraxico. São potenciadores do extase, do sacrificio e da decadência. Os jogos de poder levam a que ora uns sejam dominadores, dominados, parasitas, oportunistas, excentricos, coexistentes, solidários, ignorados, etc.

16. O agente hedónico é fluente, flexível e ligeiro; o dolorista é emotivo, esforçado e rigoroso; o ataraxico é atritoso, afundante e petrificante. A sua co-produtividade encaminha o mundo para uma complexidade crescente.

17. O indiscriminável e o repouso originantes são «dogmatizados» (inferidos-provados-intuidos) pela persistência dos três agentes entrançantes em acto. Caso estes não agissem o indiscriminável seria pura ausência. O indiscriminável é atestado através da dissipação dos agentes uma vez que as suas propriedades persistem nos jogos discriminantes em que estes se envolvem.



18. O indiscriminável assiste como conexão originante.

19. O sopro singular subsiste como bomba da animação das criaturas. As criaturas têm a sua razão de ser nos obstáculos da experiência. A actividade entra sempre num jogo de interdependências e/ou cohabitações de acordo como o ethos em que se movem as criaturas. A actividade só se realiza como liberdade. Liberdade absoluta ao nível dos sopros e liberdade relativa no jogo ético.

20. É no divergir que as singularidades soprantes encontram o seu para quê, tornando-se testemunhas da multiplicidade, espelhos «solitários» do indiscriminável, espectadores de uma ilusão resistente, ou não-re-agentes, neutros que sustentam na inactividade a acção.

21. A interface entre as representações que se acolhem e o neutro que reflecte através da não-acção que digere, leva à emancipação do sopro singular, quer do ser para os outros quer do ser para si mesmo. É como a fábula do coxo e da cortina. Desta junção predadora prossegue a cavalgada complexificadora.



22. Dos perliminares da matéria surgem os orgasmos da consciência, assim como o sujeitocentrismo e o seu oposto nihilista.

23. A intiligência funciona como um atractor magnético, organizando, orgasmando, censurando e ampliando as possibilidades através de objectos novos que surgem da secagem esquemática assim como de jogos fantasistas. A virtude, a sabedoria, o desapego e a soberania dão o toque de caixa quando predomina a ligeireza brilhante, tal como os seus opostos ocorrem quando a inércia obscurecente está em vantagem.

24. Os pensamentos que só se auto-descriminam são egoístas e não estão abertos aos prazeres da coabitação. Desse egoísmo surge a sujeição e os equívocos, assim como a injustiça na reciprocidade.

25. Os instrumentos perceptivos e cognitivos executam suas redes de funções num estado de alerta, de simpatia mútua e eco selectivo. A pertinência do indiscrimável é ser o que não se sujeita às causalidades e casualidades. Na sua plenitude nua nenhum instrumento o activa ou desactiva, porque, embora sendo espaço não tem dimensão.



23. O corpo-pénis (dito subtil) é primaveril, inconformado, nómada, determinado. Emigrando de corpo em corpo, vai-nos livrando do sofrimento substituindo-o por estratégias ataraxicas e por um sentimento de plenitude.

26. O corpo-pénis existe como transição para o corpo indiscriminável. No seu tango erótico assume-se em performances dramáticas, eriça-se como que possesso, solta as máscaras e destroi o eros diletante e serpentino. A sua exuberância resulta da maior próximidade com a Terra e suas descargas. É nesses momentos que é espelho da abundância originante e indiscreta.

27. As disposições preliminares provocam a revelação do inato. A germinação uterina obscurece os efeitos, ao mesmo tempo que os procura de uma forma inquietante. A virtude e o repouso dependem da persistência na disciplina. O rito é um instrumento da intensificação. O adorno revela o que falta ao conceito.

28. Na pulverização há uma absorção da Natureza, tal como através da despossessão o poder e o raio de acção aumentam. Assim o macho despossui-se pela emissão seminal, assim como a mulher o faz, de um modo mais concentrado, ao dar à luz.



29. O grande obstáculo é uma criação intelectual, denominada obstrução, e consubstanciada na doença, na morte, na dor e na enfermidade. É a obstrução que torna o tempo arrasador. O trabalho de descondionamento chama-se desobstrução.

30. Sem as disposições babosas nunca haveria um corpo-pénis. A lubricidade é a porta para a subtileza. A subtileza regenera as disposições grosseiras e dá um novo ânimo ao corpo visível.

31. A dor torna consciente a separação do corpo do mundo, por mais interna que seja. Assim o sofrimento é causado pelo distânciamento relativamente à natureza das coisas.

32. A natureza é emancipação. É a natureza que emancipa as criaturas destruindo os mecanismos de separação que provocam o distânciamento. A contemplação e a meditação limitam-se a aniquilar os separadores e a reunir o que nunca esteve separado. Os objectos são efectivos, isto é, reais. A natureza não é uma ilusão, embora provoque ilusões quando não contemplada.



33. Os povos copulam porque procuram perpétuar a acção. A gratificação do desejo faz com que o renitente em se manifestar se manifeste em festa. Só o apego ao desapego faz com que as criaturas se apeguem ao indiscriminável. E para que haja criaturas os povos multiplicam-se. Sem essa multiplicação o indiscriminável permaneceria abandonado e secaria. É a lubricidade da ilusão que faz com que ele não estale e se parta.

34. Tal como um dançarino desiste de dançar desnudando-se perante os espectadores assim o faz a natureza quando abandona a mobilidade, desistindo do movimento e revelando as suas formas originais (a sua genitalia). Mas o contrário também é correcto. É o movimento que abandona os dançarinos e a natureza. O estado incondicionado é dança nua, desmascarada da natureza ou do bailarino.

35. Nada é mais delicado e gracioso do que a natureza com a sua exuberância multifacetada e o seu efeito narcotizante. Mas a natureza, quer nas suas quietudes quer nas suas inquietações vibra graças aos seus pudores. Mesmo perante a sua essência mostra pudor. Só se expõe para fascinar o Ser.

36. Assim sendo, as essências não são emancipadas nem emancipadoras, nem emigram de corpo para corpo, mas mantêm-se apertadas como forcas aos corpos de que fazem parte até que estes arranjem coragem para se libertarem.

37. Pelo contrário, a natureza é auto-satisfeita na sua integridade e solidão, não se deixando aprisionar em questionários ou outras formas de indagação. Por mais limitada que seja, a natureza emigra perpétuamente para si mesma através de ciclos metamórficos, desanganando-se assim dos atritos e condicionantes de cada etapa.

38. A natureza perverte a sua «natureza» distribuindo-se através de modalidades de articulação. Mas o conhecimento dos modos de agir dessas modalidades liberta das causalidade perversas.



39. Assim com o estudo das articulações dos elementos e das sequências metamórficas esclarece a relojoaria do mundo, assim se revela o conhecimento do indiscriminável, despojado das ânsias perceptivas, conhecimento puro, desencarnado e despido de suposta essências.

40. Possessa deste re-conhecimento, e da natureza que se cessa (devido à retirada de suas modalidades de articulação), a criatura emancipada torna-se espectadora da sua própria dança.

41. O «reservado» devem indiferente, contemplando a articulação da natureza. A natureza desiste de si mesma ao ser contemplada. Ao ser contemplada des-contempla-se e retorna ao indiscriminável. Embora a coexistência consistente se mantenha, a criação só se perpetua em enciclicas ilusórias (embora as suas produtividade seja real).

42. Com a realização da sabedoria perfeita, a virtude e o repouso deixam de exercer o seu charme e de funcionar como causas. A ilusão só existe através do movimento. Na imobilidade a magia sucumbe.

43. É o tempo que se concentra num instante. Da mesma forma é o movimento que se intensifica e se concentra na imobilidade, pois a imobilidade é potência de movimentações.

44. Quando a natureza cessa de agir ela cumpre-se (e comprime-se) e o «reservado» alcança a emancipação incondicionada e interminável.

Tratactus paralogico-sophisticus (em resumo)






1. O mundo é tudo o que se apresenta/ausenta enquanto acaso (casualmente!).

1.1. O mundo é onde acontecem as metamorfoses, é o ornamento que exprime a factualidade e a fractalidade.

1.1.1. Sendo a possibilidade de enunciação dos factos (e dos não-factos) infinita e o número de coisas e particulas existente finita, a «totalidade dos factos» não passa de uma suposição monstruosa que é impensável. O acaso é a determinação/indeterminação das singularidades na não-totalidade. A categorização permite a aproximação às versões do acaso e dá uma certa forma aos nexos de causalidade.
1.1.2. A singularidade das causalidades revela que o acaso atrai nexos ocasionais.
1.1.3. As emergências nos enunciados paralógicos são o Mundo.

1.2. O mundo pode ser decomposto em múltiplas séries.

2. O acaso é o conjunto de morfologias apreensíveis de evidências (representações) metamórficas.

2.0.1. Cada emergência reproduz e reduz a sua frequência / ocorrência dentro de determinada série.

2.0.1.1. As evidências de cada emergência fazem apelo a outras evidências e emergências dentro da mesma série.

2.0.1.2. A acidentalidade torna-se evidente nos nexos seriais, mas a complexidade das emergências não determina nem uma ordem «lógica», nem faz apelo à legitimação do acidental.

3. A imagem congruente do metamórfico representável deixa-se apreender parcialmente nas casualidades dos enunciados. Todo o pensar só é pensar enquanto propensão imagética ou predação enunciante.

4. A expressão do pensar é uma vontade comunicante que pressupõe uma rede de enunciados nem sempre coerentes, aparentemente interligados por uma linguagem e um corpo de imagens. Pensar é accionar metáforas internas. A forma desse campo metamórfico é o estilo.

5. A forma proposicional é uma postura «falsificante-ilusionista» de enunciados tendencialmente simples.

6. A suposição de um conteúdo de verdade pode sêr substituida pela de projecção de plausibilidades. As proposições podem serializar ou sequênciar determinados projectos de plausibilidade.

7. Do que não podemos falar devemos recorrer a algo que não apenas o silêncio.



A ética e a estética não são um, como dizia Wittgenstein no seu tratado. A vida do criador (artista-filósofo: sofista!) deve sêr exemplar. As suas obras também. Mas o conteúdo aparente das obras segue frequentemente atracções que são alheias ao comportamento do produto face a si e ao seu meio. As obras devem expôr a «experiência descondicionante», a liberdade, sem entraves morais. As obras de arte não encontram obstáculos para a concretização da felicidade. A ética, pelo contrário, é a teoria da gestão desses obstáculos. Por outro lado, uma estética implica a sua própria multiplicação. Uma obra pode exigir várias teorias. Deve-se falar de «estéticas». A ética incorre no perigo de confundir-se com a intencionalidade. Mas aí a estética e a ética só podem sêr entendidos com acção teórica. Nesse caso ética e estética fundem-se, menos pela intencionalidade e mais pelas tentativas de imanência, de encarnação. Formam um «corpus» e tentam reconhecer-se nele. Óbviamente que a vida do artista não é alheia à obra e contamina-a parcialmente. Mas isto é um fait-divers. A obra expressa exemplarmente a essêncialidade de que a ética é incapaz. E, dentro de uma certa perspectiva, a obra oferece o artista ao mundo com uma radicalidade de que as biografias só mostram a impotência.

EPICULTURA OU A CULTURA SUPREMA


1. A cultura é onde o prazer se acumula. É o cume indestrutível. A epicultura é o cume dos cumes, opondo a excelência qualitativa à cultura degradante. Nela o atribulado e problemático da hipocultura torna-se apenas complexo e radioso, livre de raiva ou de parcialidades doutrinárias, uma vez que tais atitudes são indícios de fraqueza. Consciente de si e da sua qualidade, o seu movimento é no sentido de uma epicultura ainda mais aprazível, mais intensa, mais complexa e mais graciosa.

2. A arte parece-se com a morte, mas a arte é-nos dada como antídoto à morte. Para a arte a morte é nada, irrealização fantasmagórica, inconsistência. Como a arte é qualquer coisa que persiste para além do bios e do ethos do artista, e da dissolução dos elementos que constituem estes, a arte é sensação que resiste ao des-sensacionalismo da mortalidade. A arte sensacionaliza os seus produtores e os seus consumidores.

3. O valor do prazer alcança a sua expressão na remoção de toda a dor, ao mesmo tempo que se opõe à apatia. O prazer «substancia-se» na sua actualidade. A arte não é como a filosofia uma tendência para a potência, porque a arte é em acto (e apesar de ser em acto potencializa mais do que se fosse potência pura), e a sua temporalidade é este tempo. A arte é ininterrupta e não afecta negativamente os corpos nem as mentes. A arte enriquece sem contrariedades, e é o motor de excelência e de elevação do homem aos seus mais altos limites.

4. Uma vida agradável, por mais sábia, honràvel e justa, é insuficientemente aprazível sem arte. A necessidade da arte advém do suplemento que ela trás pelo facto de existir. É perfeitamente concebível um mundo sem arte, por mais belo, equilibrado, intenso ou perfeito, mas o facto de a arte existir melhora indiscutivelmente essas qualidades.



5. A hipotética inutilidade da arte é assim refutada. O seu porquê não está na satisfação do inferior e frugal mas na realização do superior e perene. Todos os meios para alcançar este estado extremo de felicidade são bons e naturais.

6. Alguns homens pensam que a epicultura é a aquisição de fama e de status, mas a arte não se confunde com uma demonstração de poder. O poder da arte reside exclusivamente no prazer. Só o prazer é um bem natural e seguro, enquanto a fama e o status apelam para situações inseguras e transitórias. A arte é luta, não pela sua visibilidade social, mas pela superação de si mesma, em si mesma e para si mesma. É nisto que a arte se assemelha à natureza.

7. Nenhum prazer autêntico é degradante. O prazer autêntico é força e autonomia. Um vício é apenas o consumo passivo de algo que se parece com o prazer, mas que tende para a destruíção do consumidor, isto é, para a dor e para a morte. O prazer que a arte proporciona aumenta a capacidade de viver, o apetite pela vida e a sua duração.

8. O prazer que a arte proporciona advém da sua interface com a natureza e os desfrutadores. O prazer procura a variedade, como no donjuanismo. Há uma insatisfação de fundo que é o desejo do diverso. Mas o desejo do diverso é das coisas mais desejáveis. Se o prazer não fosse um diferir, a arte seria monotonia. Mas o prazer é a construção de multiplicidades, a diferenciação das diferenças, e através deste processo, um apuramento perceptivo.

9. É esta persistência na experiência e na capacidade diferenciadora que nos livra do medo. Aquele que não experimenta acaba por temer a experimentação. Aquele que teme a diversidade perfere defender a unidade ou a nulidade. O mundo existe não só para que o experimentemos mas também para que lhe adicionemos experiências que aumentem a capacidade de percepção quando o experimentamos. A arte afina a capacidade de experimentar a natureza.

10. A experiencia do mundo tem momentos dolorosos que são compensados pelo prazer. O medo da experiência do mundo é gerado pelo desprazer circunstancial e por alguma inexperiência. A acumulação de medo e de inexperiência leva à rejeição daquilo que nos é dado, do mundo como experiência, assim como da arte que intensifica essa experiência. A epicultura combate esse engano.

11. É pois a ignorância que leva ao obscurantismo anestésico e aos iconoclasmas. A rejeição da arte em nome de «virtudes» corresponde a uma rejeição da intensidade da vida.

12. A arte não deve procurar a legitimidade para além de si mesma e da esfera do prazer. A arte erigida em monumento é uma traição às musas. Toda a burocratização é negação da arte. A arte é desburocratizante. Através da arte o acesso ao prazer é directo, sem intermediários, sem requisitos mínimos e sem autoridades a justificá-lo ou proíbi-lo.



13. Há concepções de prazer (teorias, opiniões, etc.) que flutuam sobre a arte: se essas concepções forem arte aumentam a intensidade; se essas concepções forem burocratizantes limitam e falseiam a arte e diminuem a capacidade de experimentar o prazer.

14. A riqueza que a arte e a natureza oferecem é acessivel e persistente. A riqueza económica e os ideais demasiado abstractos são instáveis. Uns são dificeis de obter e a sua posse pode obstruir os sentidos. Outros entopem os sentidos dogmatizando-os e simplificando-os.

15. O homem que não desfruta do prazer e da arte tem inveja do que os disfruta. Esta inveja leva à injustiça e ao ressentimento.

16. A epicultura é imperturbável, a hipocultura é perturbante.

17. O prazer implica muitas vezes o esforço. O desprazer está na maior parte das vezes ligado à perguiça dos sentidos e da mente.

18. O prazer corporal aumenta depois de um grande esforço. Esse prazer torna-se mais intenso pelo repouso. A satisfação desse repouso provoca um prazer intelectual.

19. Nos momentos mais críticos e perigosos a consciencia de que se viveu o prazer e a epicultura torna esses perigos menos relevantes. Mesmo perante a morte eminente é preferivel ter experimentado o prazer e a arte do que os ter rejeitado.

20. Os limites da vida exigem que tomemos partido contra tudo o que limita a sua experiência.

21. A consciência das sensações pela experiência deixa-nos optar entre as mais desejáveis e as indesejadas.



22. A desobstrução das faculdades mentais através da arte amplia as ambiguidades, diminui a confusão e aumenta a confiança.

23. Quem luta contra as suas sensações luta contra o mundo. Se te concentrares nas tuas sensações, mesmo as mais dolorosas, conseguirás transformá-las e manipulá-las em algo aprazível. É a arte que opera esta transformação.

24. As tuas opiniões, por mais opiniões que sejam, se nasceram de uma experiência de transformação interior são válidas. No entanto deves estar atento às opiniões alheias como possibilidades de experimentação. Mais do que opiniões correctas há opiniões que abrem experiências de vida e outras que as limitam. Segue as opiniões que o levam ao intenso, ao diverso e à discriminação perceptiva.

25. Se uma opinião não for consistente com o teu modus operandi artístico questiona a tua opinião e a tua acção.

26. A consistência da acção e da produção artistica com as teorias deve ser efectiva, mas essa consistência deve ser menos uma relação de causa e de efeito do que uma a interacção entre os pressupostos de uma e da esfera de efeitos e experiências da outra.

27. Se uma atitude artistica conduz à dor própria ou alheia é porque não corresponde a uma necessidade autêntica. Há desejos que elevam e desejos que danificam. A grande arte aprende a distinguir e a praticar os primeiros em deterimento dos segundos

28. Entre todas as virtudes a mais sábia e que melhor assegura a sabedoria é a amizade entre artistas produtivos, a única capaz de assegurar a felicidade pela resposta permanente aos estímulos artísticos.

29. Os que mesmo sendo «artistas» odeiam a arte preferem dizer que ela morreu ou está moribunda. A desconfiança perante tais mortes tão publicitadas é partilhada por aqueles que acreditam na epicultura. A amizade, o entusiasmo e a confiança ilimitada na produção artística não se deixam impressionar por silogismos e teorias que mais não são do que uma demonstração da impotência da hipocultura, mas apenas desta.

30. Há desejos que correspondem a necessidades. Resolver as necessidades torna as carências em prazer. Mas a via do prazer é não só a satisfação dessas necessidades como um suplemento que é como um ornamento que realiza no individual o mundo e o seu direito de ser. Essa ornamentalidade torna o prazer mais intenso. Essa intensidade é a graça, isto é, a exuberância da natureza no seu auge.

31. A naturalização da arte é a não-coacção. A arte exprime a resolução de necessidades que circulam epidermicamente. Essa expressão reflecte-se como um afecto compensador sobre as comunidades que partilham essas necessidades.

32. A epicultura não acredita na resolução integral de todas as necessidades e problemas, porque as necessidades e problemas são de ordem biológica e os organismo necessitam deles «naturalmente» para se autoregenerarem e diversificarem. O que a epicultura luta é para que os problemas sejam menos cruciais e que através do òcio possamos entregar-nos a designíos mais profundos e a uma partilha mais alargada dos prazeres sob o signo da amizade.

33. A epicultura necessita do pudor, da discrição, mas não de segredos. Os segredos implicam a hierarquização de poderes. A confidência faz com que os saberes sejam partilhados e que haja um aumento de complexidade hedónica. A epicultura apenas se contenta com uma «justiça» em que haja reciprocidade entre excelências, por mais divergentes que elas sejam.



34. A epicultura controi-se nas suas adversidades, por si, contra si, num paradigma metamórfico. Mas constroi-se com todos, no não-rebaixamento, no enterlace das disenções, no gestão da diversidade de interesses, no princípio de que o prazer só é prazer se não gerar injustiça física, de direito e de relacionamento. Ao dizermos isto sabemos que a vida é essencialmente conflituosa, mas também sabemos que grande parte dessa conflitualidade é proveniente da burocratização das subjectividades e do desejo de domínio hierarquico.

35. O poder é o prazer de se ter prazer. O reconhecimento do prazer só se faz entre iguais, e o regozijo do prazer alheio provoca um prazer crescente na comunidade (embora também gere invejas). Cada dia se torna mais claro que a cultura é uma rede cada vez mais democrática e sincrética de participações discretas, e que neste imenso processo a participação de cada um é efectiva e inequívoca. Na epicultura a qualidade é em cada eco criativo um eco da multiplicidade de ecos.

tretalogia mista (5)


CAPÍTULO V



Há uma tendência perversa em pensar que as coisas têm ou uma única causa e que essa causa tem eventualmente causa nenhuma. Ignorar a multiplicidade de causas é atirar o intelecto aos crocodilos e convidá-los a que nos devorem.

Não que o mundo seja uma desordem eminente, mas a sua consistência labirintica não o isenta de regularidades.

A ideia de alma só faz sentido em função da mobilidade e da agilidade. A inércia física inerente a toda a matéria torna essa mobilidade mais excitante.

A imaginação não basta. A arte combinatória permite alguma predação, mas é a resistência da matéria aos jogos inócuos que produz a felicidade.

É certo que fujimos a sete pés de uma defenição concisa. O rigor obriga-nos a que justifiquemos as divindades suprimindo-lhes os atributos, e fazendo dessa supressão uma excitante experiência intelectual.

Há um prazer no exercício de geometrias simples com fins hipnóticos. O poder hipnótico dos diagramas é um bom suporte para a meditação, porque o simples é mais fácil de encarar do que o confuso. E o rigor ajuda a dar alternativas ao fluido. A justaposição de um jardim zen e de uma piramide é o que permite contrastar o «eterno» e o efémero.

É certo que a razão procura circunscrever-se aos seus limites como um software que só serve para aquilo. Mas a natureza procura mais do que uma programação que se contrai perante as tautologias que a fundam. É o sentimento de evasão como acrescento ao limitado que a tretalogias mistas oferecem.

A natureza torna-se absoluta na sua negação, adquirindo uma liberdade ilimitada. Mas a natureza procura a nossa erecção, e é através dela que nos tornamos antigos, como se saíssemos de um museu e acordassemos para as musas. É bom estar cá fora.

tetralogia mista (4)


CAPÍTULO IV

Não precisamos de legitimidade para ir à caça. Precisamos é de habilidade e mobilidade. Mais do que um templo o divino é uma caça.

Aquilo de que necessitamos mais é de sensibilidade e caos. Algum bom-senso serve. Mas poucas vezes.

Um corpo é uma coisa que trabalha. Os sofismas estão na horta. Para que haja qualidade o que há tem que ser tangível.

O inatingível é a causa do sofrimento.

As desordens do espirito saem nos espirros. Dizemos santinho, mas também podiamos dizer «vade retro satanás!»

Necessitamos de mudar os nossos hábitos religiosos e por isso pedimos deuses mistos, consistentes, carnudos, teatrais, capazes de descer aos nossos corpos e proporcionar experiências estonteantes, simultaneamente terriveis e doces.

Os deuses são como animais que dançam no vácuo. O nosso dever é assimilar as suas capacidades de dançarinos. Devemos aproximar-nos da divindade como se o ornamento da dança fosse um dos elementos mais pro-vocantes do mundo, porque o mundo precisa de causas artísticas e afrodisiacas.

tretalogia mista (3)


CAPÍTULO III


Trata-se de alicerçar a generosidade cósmica em metáforas culinárias.

A gestão do mundo está entregue a uma cooperativa operária. Por isso mesmo ele não dá lucro.

Deus declara que a natureza é sagrada como uma vaca. Eu perco o sentido de humor sempre que vejo alguém a rezar.

Haverá a hipótese séria de rezar às gargalhadas?

O Incriado é o Mal-criado.

A matéria é Jesus. As coisas são jesuítas.

A única justificação para a fatalidade é haver oráculos.

O sentido trata-se de uma mera coincidência entre o que observamos e aquilo com quem gostariamos de ir para a cama.

Sem o desconhecido o desejo não valeria um pentelho.

É graças à hibernação que podemos fazer coincidir o Intelecto com Deus ou a Vacuídade.

Os estupidos só são capazes de repetir. Repetem e repetem. Tornam-se crentres zelosos ou comunistas ressentidos. Amam o próximo com indignação. O que não deixa de ser curioso.

O misticismo inibe. Temos vergonha de ser misticos porque isso nos parece uma cedência ao mau design. Friques e pirosos.

Mas não podemos confundir as cópias com o original. Os misticos mergulham em piscinas negras. Os parolos que consomem misticismo acham que tudo é felicidade e àgua benta (presunçosa) com coelhinhos e arco-iris.

Por vezes sacrificamos o Intelecto e cai-nos um raio em cima.

Os que chegam à experiência mistica pela via positiva são todos voltados para o simbólico e para as hierarquias de anjos. Os que chegam pela negativa usam o simbólico porque desconfiam dele. O simbólico é a cabeleira postiça da experiência mistica.

tetralogia mista (2)


CAPÍTULO II


Tentamos unir-nos ao que quer que seja. Mais misturados. Mais mistos e mais anexos de qualquer essência.

Tapamos os olhos porque a beleza persegue-nos de helicóptero.

Levamos as visões ao mecânico. Ele diz que demora tempo a concertá-las porque as peças têm que vir do estrangeiro.

A verdade é sempre uma tradução errada.

É o exagero dos detalhes que nos conduz à abstracção.

No minete é que está a Graça Divina.

Mais luz? Mais sombra? Menos impostos?

Só me sinto bem no cabeleireiro lendo Goethe.

Nem todos os deuses são carecas mas a maior parte deles é velho.

Os sábios sabem que depois das negações tudo fica em àguas de bacalhau.

A beatitude é isso: àguas de bacalhau.

TRETALOGIA MISTA (1)

por Pafnúcio o Páriofajita




CAPÍTULO I


O que é o obscurecimento divino?

Questão babosa? Consistência triádica? Mergulho no supernatural? Complexidade intelectual? Conhecimento exaustivo?

Como guiar os homeostéticos com um holofote de bolso à suprema iluminação?

O homeostético desconfia (mas também confia) das suas intuições selvagens e como tal procura alicerces nos enunciados rigorosos de uma lógica post-paradoxal.

Conhecimentos místicos com muitos tan-tans. Sim! Exame crítico do incompreensível? Idem aspas! Exaltação do conhecível e do conhecimento mundano e similares. Pois claro!

Uma boa tretalogia deve ser mista. Sem sincretismo dos vários modos de conhecimento o escrutinamento e o usufruto hedónico do mundo e da arte é apenas parcial. E, acrescento, ilusório!

Dirija o seu conhecimento para mistérios mais puros, sem roupa suja. Pendure-se numa concentração que absorva o absoluto como uma esponja. Não tema o incompreensível! Com os nossos detergentes intelectuais depressa se tornará não só detergível como branco e límpido.

Se você gosta de silêncios secretos e das ténebras que vão brilhando, ou de abismos intelectuais nós temos as melhores receitas, e saberemos carregá-lo de energias sobreabundantes que cegarão as mais acanhadas ignorâncias.

Deixe que a glória invísivel de Deus ou do Vazio (consoante o seu gosto) se apodere de si e o penetre e descobrirá uma beleza impalpável e invisível que envolve as coisas palpáveis e visíveis.



Faça muitos exercícios místicos e não só. Seja misto desde as suas unhas negras até às sumas teológicas e ateológicas que estão adormecidas em si. Seja um Einstein de tudo. Já pensou bem nisto?

É certo que neste mundo tudo é ser e não-ser, sensibilidade e intelecto, vazio e inconsistência. Mas a faixa que lhe exigimos é perfeitamente atingível. Ser menos que um génio é deixar-se atrasar! Para já deve começar por admitir que o Absoluto é você, sem caír em convencimentos idiotas. Considere-se o Absoluto com o máximo de humildade. Constate ao mesmo tempo que isso é a Suprema Humilhação.




As trevas divinas estão lá para o ajudar a renunciar aos seus objectivos de carácácá e à sua subjectividade estafada. Há alguma super-hiper-realidade para além de si? Não!

Tem demasiadas contradições num sururu a perturbar-lhe o dia a dia? Pois bem. aceite-as. Experimente uma série de tretotécnicas que lhe tornarão cada segundo insuportável. Você será o pária dos párias. A sua respiração esmaga-o. O próprio suicídio será pouco para o aliviar destes tormentos. Ou então experimente as tretotécnicas aprazíveis, com intensidade e persistência. Se o fizer com um espirito leviano o Universo ser-lhe-á indiferente! Você apenas quer ser o Mestre e o Escravo, num grande orgasmo intra-extra-cósmico sado-masoquista.

O caminho mais rápido é a autoestrada das negações. Guie com prudência?

Aquele que sucumbe a uma desprivação total percebe que nem a linguagem o segura. As distinções acodem-lhe apenas através dos sentidos como ondas que vão e vêm. Os deuses ausentam-se. As palavras tornam-se incompreensíveis e musicais.

Porém aquele que caminha no deserto tem que se segurar às palavras como pilares que sustentam o céu e que abrem as portas para a desmesura do desconhecido. Deus é uma tenda. Todo ele é rigor e desmesura.

O divino também se resguarda com as suas minúcias, teológicas ou ateológicas.

A negação entranha-se no humano como uma fera apocaliptica.

A negação acaba por devorar Deus. Quando voltamos a beber os copos de àgua é porque tudo já passou. Antes, os monges zen pareciam idiotas. Depois tudo se tornou maravilhoso. Finalmente os monges zen voltaram a ser idiotas.

Fomos todos feitos para ser purificados com violência. Consola-nos a possibilidade de existir uma ternura transcendente, mas será que há mesmo?

O divino é só o multiplo. A unidade é demasiado profana. Faz parte dos enunciados académicos. E das teses atrasadas mentais.

Deus contempla os homens com fastio. A morte ânseia-os com dentes caninos. A eternidade está putrefacta.



O homeostético gosta do desconhecido como de uma pastilha elástica. No ínicio é açucarado, finalmente converte-se em mastigação. É dessa mastigação que nascem os poemas, como pastéis primitivos, verdadeiros empadões em que se sente o autêntico sabor a bufalo.

O homeostético cai pela sua inactividade abaixo.

O sagrado é quando se desdobra o gardanapo e se sente a textura da iguana. A inactividade eleva os homens ao quadrado. Passamos dos quatro membros aos dezasseis e depressa nos apercebemos que não somos muito diferentes de Shiva.

A VEXAÇÃO DA NÃO-MENTE

1. À natureza da mente falta quer a mente quer a natureza, embora as duas estejam necessáriamente a mais.



2. A mente é uma descarregadora embriagada.

3. Não há um único fenómeno que não seja essencial, evidente e paradoxal.

4. Nada mais superfluo e decorativo e necessário do que as essências.

5. Há que descascar, descartar e decorar antes de purificar.

6. Procura as extremidades onde encontrarás a ponta do fio que te deixará desembaraçar a meada. Mas provávelmente não há extremidades. Só embaraçamento.

7. O que é inactivo leva as coisas a manifestarem-se como se estivessem mascaradas de uma quietude brilhante.

8. Muitos falam da vacuídade para que as suas doutrinas fiquem ainda mais confusas e daí nasça um prestigio delirante e a legitimidade da perplexidade.

9. A diferença nula entre a latrina e o dharma.

10. As circunstâncias tornam-se mais e mais penetrantes de vexação em vexação.

11. Espontâneamente vindo e indo, como se quizesse falsificar o acaso.

12. O uso solicita o abuso e quase se esgota nele.

13. Se queres fazer do teu corpo um templo tens que tornar a mente límpida.

14. A pureza da mente obtem-se através da conspurcação física.

15. A impureza da mente é um estigma dos puritanos.

16. Não se pode cultivar a vacuídade da mente sem a mente. Não se pode cultivar a plenitude da não-mente sem a carne do mundo.

17. O não-saber é o sumo do saber e não a rejeição deste.

18. O maravilhoso ainda é o «quase», não a overdose.

19. Agarrar-se à ilusão como uma gibóia? Ou uma boia?

20. Depois do samadhi imóvel, um samadhi feito de modulações e de travestimentos.

21. O nirvana é um esquecimento imperdoável da musicalidade.

22. Um deus que não dance torna-se rápidamente obsoleto.

23. As garras da imobilidade...



24. Esta vida é um segredo demasiado complexo que redime a morte vagamente iluminada do universo.

25. A natureza é paródia das divindades soberanas.

26. Um princípio para parecer elevado tem que se pôr em bicos dos pés, mas para ser efectivamente elevado tem que mergulhar nos mais obscuros subterrâneos.

27. Precisamos de explicações como de divinas quecas.

28. É necessário partir o espelho da sabedoria para nos apercebermos de que esta é composta de fragmentos espelhantes.

29. O pensamento vai de vexação em vexação até não encontrar nada a que se vexar – confunde-se justamente com o mundo.

30. O sagrado é uma abundância que nasce de uma intenção/atenção ascética.

31. Desobstruir – uma prática para além de palavra de ordem.

32. «A roda do samsara produz a lama de onde brota o nirvana» – é uma afirmação infantil. Mas será inútil?

33. O brilho das ténebras é o resultado de um polimento desrazoável – procura-se o obscuro com uma vertigem psicadélica.

34. Só a diferença aconchega as ambições mentais.

35. A identidade mostra um explendor vazio que paira não se sabe sobre o quê.

36. As refutações originam um prazer de pastar no passado já que tiram o prazer ao presente. A rememoração é uma consequência de negações que geram o prazer equívoco da inactualidade.

37. A ilusão de que nem o passado nem o presente nem o futuro são é deliciosamente embriagante.

38. A lógica da Vacuídade, nos seus axiomas mais radicais e paradoxantes, tem a eficácia de um opiácio.



39. Precisamos de boleias messianicas para contemplar soberanamente a história.

40. A causa das vexações é a iminente não-existência – a existência da desistência?

41. A dádiva mantém os deuses numa hierarquia lucrativa. A cessação das dádivas cessa a glória. Nunca houve nada a receber ou a dar. A não ser que...

42. Forja perceitos que pratiques numa arrasante sedução.

43. Torna as tuas opiniões mais musicais.

44. Os sentimentos não conduzem à iluminação porque já são iluminados.

45. Os ganhos e as perdas são as faces de uma mesmo moeda embora ela caia com mais frequência para um lado do que para o outro.

46. Dizer que a iluminação procede de uma dupla refutação é como fazer nascer as coisas de enunciados lógicos. Estranha magia!...

47. Para escutarmos correctamente o nosso daimon deveriamos ter os ouvidos ainda mais limpos.

48. Falar de palavras vazias é ignorar quer a carne quer o esqueleto.

49. As ideias tentam embriagar-se da sua extinção como de uma apoteose idiota.

50. Os turbilhões mentais deixam-se controlar pela meditação. Esta constatação não implica que sejam abolidos, mas apenas que sejam transformados.

51. A mente aquietar-se-á sobretudo nas circunstâncias menos ideais.

52. A graça é mais importante que a dedução.

53. Procuramos a agitação e a impureza porque nos proporcionam o extase que a «des-mentalização» dissimuladamente solicita.

54. As formas não querem descansar, por mais perfeitas que sejam.

55. Falar de causalidade é como cacarejar em frente de uma serpente.

56. A causa das causas não se cala.

57. Deduzir que há só uma causa das causas a partir de dados firmes não me garante que haja uma só causa. Há sempre a hipóteses de haver várias causas, de não haver nenhuma causa, e de tudo se entre-causar.

58. A morte é a causalidade na cama.

59. As circunstâncias adversas proporcionam as maiores surpresas.

60. Portas para a dor sair são bem úteis.

61. As circunstâncias estão fundamentalmente cheias de relações incestuosas.




62. A iluminação é o incesto numa versão light e abstracta.

63. A calma da mente não dá para acalmar o resto do mundo, por mais contagiante que seja.

64. O altruísmo incita convincentemente ao assassinato.

65. Por mais errados que estejam os fenómenos estes podem levar-nos a práticas correctas.

66. Fazer qualquer coisa, como se houvesse reciprocidade, mesmo que esta seja infíma.

67. A natureza renasce-se todos os dias e através dela algo remanesce para além do tempo e suas morfologias desperdiçadas.

68. A virtude é a «formação» e a «deformação», não a Forma ou a sua aniquilação... será necessário estar sempre a dizê-lo?

Gymnophilia




1. Só se pode amar absolutamente uma só coisa, por mais múltipla que ela seja. Essa coisa é intensificação, extase, velocidade-voracidade, ser, libertação (samadhi, «nirvana») etc.
2. Pode-se amar parcialmente e com bastante intensidade várias coisas, embora de um modo desigual. O amor entre as várias coisas pode ser docemente confluente ou violentamente concorrente.
3. A gymnophilia articula o amor absoluto com os amores parciais.
4. Os amores parciais não são uma forma degradada do amor absoluto, mas são a necessária imperfeição que faz com que a intensidade se queira ainda mais intensa.
5. O Amor (o amor absoluto) para se expandir (ou «extinguir) necessita de se teatralizar. O Ser teatraliza-se na Doxa. A vacuídade, ou o absoluto, teatralizam-se na ilusão.
6. Os amores parciais fazem parte dessa comédia-tragédia-cosmética.

tratados tretotéricos

Há alguns anos atrás tentei sistematizar o tretoterismo: este é o primeiros de uma série de tratados, o mais sistemático e o menos divertido.

















Tratado das causas e não-causas homeostéticas-tretatéricas




(SEQUÊNCIA DE ACORDO COM A ORDEM NÚMÈRICA)



ANESTESIS

0 = 0

1. Não há causalidade
2. Só «há» nada: nem absoluto, nem relativo, nem vacuídade
3. Qualquer quantidade ou qualidade é ilusão e sem consistência
4. Não há essências nem sensações, nem percepções, nem inferências
5. Os métodos de «libertação» (embora esta seja uma ilusão) são a des-entificação, a crítica, a negação (vulgatas budistas).
6. O objectivo é a An-estesia: a ausência quer de dor quer de prazer.


MONOESTESIS


0/0 = 1

Da relação do 0 consigo mesmo nasce a ilusão de que «existe» um Universo e uma Unidade. Eventualmente também originará uma causa das causas. A equação 0/0 = 1 é clara. É a Monoestesia e o Henofisismo correspondente. Tudo é absolutamente identico a si próprio. Uniformidade, plenitude, totalidade, imobilidade, etc.


DIESTESIAS

1 + (-1) = «1»

A constatação da unidade provoca uma reacção de figuração de uma hipotética não-existência. A nulidade absoluta da anestesia é mais dificil de admitir do que uma identidade negativa. E mesmo que fosse suposto pensar o 0 isso implicaria o pressuposto de que há algo capaz de anular o 1, isto é, o -1.
1. Se 0 e se 1 fazem sentido, logo: 1 + x = 0. Então x = -1.
2. Se o 0 não faz sentido (só há quantidade porque o não-quantitativo não é perceptível), e se o 1 existe, então ele é a soma das contrariedades internas. A equação é 1 + -1 = «1», de forma a que este «1» inclua as contrariedades internas (como em heráclito). É o princípio da Paradoxa.
3. O «1» resultante é Forma-Informe (purusha-prakriti), Totalidade-Multiplicidade, Positivo-Negativo, etc.











DUOESTESIA OU TRIESTESIA


1 + -1 = 2 ou 1 + -1 + 0 = 3

1. A unidade complexa enunciada pela diestesia pode fazer surgir a tentação binária e trenária, mesmo que esta venha, numa tentativa de salvamento, a ser re-identificada com a própria unidade.
2. Todas as classificações de contrários (binárias), com ou sem exclusão do contrariante são deste tipo, ainda que estes possam ser concebidos como complementaridade, «resposta», etc., ou opostos radicais. Exemplo: Yang/yin
3. Mais complexa é a versão trenária porque admite um princípio neutro, requilibrante (homeostesico) que medeia e regula as clivagens entre opostos. Exemplo: 3 gunas



DOXA

6 = 9 = 0

A Doxa é a zona central de toda a Homeostesia porque é o que é dado. Torna clara a identidade entre a Nulitude (o 0) e os principios binários e trenários.
A Doxa é o que é dado. É a krisis. Só ela permite discernir os jogos que formam as concepções de causas.
A Doxa é: opinião, aparência, ilusão, plausibilidade, glória. Ou: o discernível, o possível, o opinativo.
A Doxa é a soma do 0 (nihil), das várias versões da Unidade, das suas estratégias de figuração de causalidade (o 2 e o 3) e da Multiplicidade (-1?)



DOXAS

6 = 0

Desdobramento do pensamento binário. 5 sólidos platónicos mais a esfera (sólido 0). I Ching. Ângulo Recto. Etc.

9 = 0

Trifurcações trenárias. Triangularização «equilátera». Taixuangxi. Tao Te King, Divina Comédia, etc.

0 = 0

Bolismo, informalismo, vacuísmo (minimalização), nihilismo relativo. Neste caso a equação mais correcta será 0 = 0 + (-∞ + ∞)






SUBDOXAS OU ESTILOS


Todos os cruzamentos de doxas ou de regras com algum grau de precisão fazem nascer aquilo a que chamamos estilos, isto é, uma programação na produção de formas, visões do mundo e perspectivas de causalidade.

As Doxas são os príncipios geradores basicos e imutáveis. Os Estilos, pelo contrário, estão sugeitos à degradação e ao cansaço. Este cansaço é proporcional à ansiedade e à variação «mediática» (considerando este termo quer como meio biológico quer como o conjunto de sinais artificiais).

A degradabilidade está dependente da habitual classificação em 4 tempos, embora esta seja simplistas:
1. Emergência. Formas simples, vulgo arcaísmo. Preto e branco ou castanhos ou cores primárias.
2. Complexidade ascendente até à acmé. Classismo. Gradações entre côres ou claro-escuro. Busca de ilusão realista.
3. Complexidade decrescente e cansaço. Combinação de claro-escuro com gradações entre côres (mesclados). Nostalgia do arcaísmo. Paródia. Fantasia. Prazer no anómalo. Maneirismo.
4. Desagregação e fusão das formas. Exaltação da energia ou da aniquilação. Barroco e rococó. Propensão para cores escuras (nocturnidade ou tenebrismo) ou para côres pálidas (pastel).


HOMEOSTÉTICA


A homeostética promove a variação e o sincretismo, o regresso às doxas e a evasão destas, a circulação entre a «anestesia» e os Estilos. É a consciência como voracidade predadora e intensificação biológica. A programação das causas é uma estética. Enquanto organismo vivo a homeostética acredita que o exercicio das doxas proporciona uma melhoria quer do software quer do hardware. Uma boa programação melhora o «corpo» e vice-versa. Os métodos tradicionais são as técnicas post-paradoxais (ver a doxa na paradoxa e o contrário), infracriptográficas (há um antes antes do genealógico que está em progressão no tempo e no espalço), e transmenipeicas (todo o enunciado é teatral e o seu fundo é excessivo e cómico). A função da transmenipeia é elimiar o poder «superfluo» (des-burocratizar relações de forças), a da «doxa-paradoxa» é afinar a «percepção» das configurações lógicas e ultrapassar as suas clivagens, da infracriptografia é a de entender as metamorfoses e o que as faz mover.

Saturday, August 04, 2007

tretotécnicas


TRETOTECNICAS (ou o Anti-bhijnabhairavatantra)



Estas técnicas destinam-se a ser exercitadas por aqueles que buscam o sofrimento intenso e que não estão para entrar em tréguas com as mentiras que estruturam o mundo e o sujeito. É òbvio que há uma alternativa, menos nobre, que consiste em pactuar com as ilusões e a ingenuidade. Mas será que há escolha possível?

Hildegardo Caronte





1. Desconcentra-te! Tenta não sentir a respiração ou o intervalo entre respirações sucessivas! Considera esse momento denso e obscuro. Deita o ar fora e sente o alívio de já teres respirado e o horror de te preparares para uma nova respiração – o doce pânico existêncial!

2. Usa a respiração como uma bomba. Faz explodir o ar em baixo. Esvazia-te violentamente até que nenhum ar subsista – destroi-te!

3. Ou, sempre que a inspiração e expiração se fundem, sente nessa confusão de sopros mal digeridos o cansaço!

4. Ou, quando respiração parece que foi toda evacuada para fora ou te sentes a rebentar como um balão, sente essa vertigem terminal que te esmaga – é tão fácil como fazer milagres!

5. Considera a tua intimidade como uma tempestade assolada por raios subindo e descendo pela medula entre o ânus e o cérebro. Considera a tua existência como uma anomalia.

6. Ou nos intersticios desse sentir caótico, deixa-te fulminar por dolorosos choques elétricos!

7. Sente o alfabeto manipulando a tua consciência. As palavras que te pensam são compostas por letras destituídas de quaisquer sentimentos. Sente essa insensibilidade de não seres mais do que sons ou letras, e então, considerando a artificialidade das subtilezas compreende que foste apanhado na ratoeira!

8. Evita a atenção entre sobrancelhas. Deixa os pensamentos ainda mais indomáveis e destruídores. E que uma avalanche de dúvidas te faça remoer e remoer de uma ponta à outra do corpo, inundando-te como ténebras.

9. Ou, imagina que és um horrível degradé new age. Deixa-te derreter no seio desse kitsch cósmico e sente o enjouo das imagens comprimindo-te contra uma parede até ficares completamente prensado. Sente que és mais falso do que tudo o que se imaginou!

10. Fecha com força os olhos e examina-te em todos os detalhes perversos. A tua essência é uma fraude que se tenta aldrabar a si própria.

11. Deixa que um sentimento de opressão surja do centro do teu corpo, como um vulcão medonho. Em tais pântanos de lava sê um vil retornado.

12. Fecha-te a sete chaves nos subterrâneos em que já não há segredos, e de repente imagina que nunca houve nem haverá mundo lá fora, e através desse espaço torna-te voluntáriamente excluído!

13. Os olhos geram pesadelos que semeiam outros pesadelos. A luminosidade é uma fantasmagoria que destroça o coração. Tem a certeza da intrincada confusão do mundo!

14. Banha-te na cacofonia que te rodeia, como uma soma de sons descontinuos e desconexos. Abre bem as orelhas orelhas e ouve o ruído dos ruídos.

15. Vocifera um som, como o b-u-m!!! Estrepitosamente. Tal como o som, entra no arrepio da barulheira, num inferno.

16. Examina a gradação de cada sílaba, como algo desporvido de interesse, e então compreenderás que te arrastas na fala como em algo sonâmbulo.

17. Quando escutares sirenes tenta ampliar o som arrepiante até que uma surdez central se apodere da tua escuta. E assim permanecerás desinteressadamente, numa total ausência.

18. Resmunga, refila, grita, e repara que até os teus sentimentos mais intímos se desvanecem nessa densidade ruídosa.

19. Imagina o espírito como uma mosca à volta de ti mesmo até que o universo inteiro se vulgariza.

20. Resiste a todo o bem estar que te quer enganar pois não passa de uma armadilha para te tornares mais burocrático.

21. Utiliza toda a tua intiligência ao serviço de uma idiotia como o «inexprimível», e nessa inutilidade regozija-te com o facto de o fazeres com o máximo de cinismo!

22. Considera toda a tentativa de saíres do marasmo em que te encontras como um acréscimo de sufoco.

23. Sente a nhanha de que és feito como que saturada de tretas cósmicas.

24. Supõe que és a retrete onde o mundo inteiro vem lançar os seus fedorentos dejectos, e que essa coisa a sente e se enche!

25. Ó amaldiçoado, ao sentires o que quer que seja repara como és um cozinhado intrincado de mal condimentados sentimentalismos.

26. És uma diarreia de estupidez que se julga intiligente – lesma evasiva.

27. Quando entretido nas tarefas mundanas, pára um pouco, sustém a respiração e descobre que por mais que a tua vida varie as coisas acontecem e surgem como se viessem repetitivamente.

28. Atenta ao incêndio que se levanta doloroso nas partes inferiores do corpo, e, como se estivesses num inferno, sente que esse fogo que te vai consumir, nunca cessará! Então terás inveja das cinzas.

29. Pensa no mundo e coloca-te no papel de um deus superior. Garanto-te que é desse ponto de vista que a vida é sobretudo um tédio.

30. Sente as qualidades rancorosas e o prazer precário que obtens de actos destrutivos e de como até a delicadesa que arrasas é enjoativa.

31. A inexistência e a morte são preferíveis? E dão-te algum garante? Terás essa possibilidade de te escapares? Não serão elas caminhos para algo ainda pior? Não terás como garantido que nunca te poderás escapar?

32. Tudo flui de uma coisa para outra incapaz de convergir definitivamente nalgum corpo. Os mundos são instáveis. Os deuses instáveis. A sabedoria instável. Há seres (pobres pretenciosos!) que têm a pretensão de ter ultrapassado essa instabilidade. Mas terão alguma garantia de uma definitiva estabilidade? Òbviamente que não. Assusta-te com toda a instabilidade!

33. Ó desenxabido, entretem-te com o jogo do universo como numa estopada porque já não há escandalo ou fofoca que te anime. Então até as mais excitantes notícias te provocará na pele uma alergia infinita.

34. Olhe como que por cima do sobreolho sem condescência por tudo o que seja abaixo da excelência (se é que ela existe!). Nestes momentos rigorosos torna-te depreciativo!

35. Retira-te para um lugar espaçoso, vasto, uma natureza o mais pura e nua possível, sem casas ou àrvores. Chega imediatamente a depressão!

36. Ò criatura amarga, medita no saber e no não saber, no existir e no não existir. Deixa então ambos de lado e constata a inutilidade de tais meditações.

37. Todos os objectos estão a mais e só atrapalham. Torna-te nesses objectos, como se eles fossem vítimas de magia negra. Ò amaldiçoado!

38. Caos da sensações com a presença atarantada de seres um zombie.

39. Com o máximo de ressentimento, concentra-te na junção de duas respirações e sente a catástrofe!

40. Considera que o interior do teu corpo é fundamentalmente conspurcação!

41. Ao ires para a cama com a mais doce princesa, despacha-te depressa dessa hipócrita queca.

42. Pára as portas dos sentidos ao sentires que és uma criatura explorada que rasteja como uma formiga. Nunca mais!

43. No início do acto sexual, tem em atenção a ânsiedade que te move, e, após o orgasmo, nas cinzas desse acto, em vez de te sentires alíviado, percebes que chegou a inevitável ângustia do cigarro. Mesmo que não fumes!

44. Durante o frenesim dos sentidos, na agitação que precede o orgasmo descobre que estás a ser meramente mecânico.

45. Tenta esquecer os corpos, e os languidos abraços, e o insuportável fedor.

46. Quando por surpresa encontras um velho amigo que não vias há muito tempo, o sentimento de alegria muda-se rápidamemte para o de desfazamento.

47. Quando comeres ou beberes, analisa meticulosamente os sabores dos alimentos e bebidas. Então tudo o que parecia ser sensação intensa torna-se classificação, categoria, e fixa-se em nomes inuteis, totalmente inócuos.

48. Ó tu, que já nem te atreves a olhar para o espelho, tenta para compensar cantar com intensidade e sentimento a mais bela melodia. E grava-a logo. Ao escutá-la não és só tu que és um desastre a cantar, é o universo que regressa desafinado!

49. Sempre que algo te satisfaça mínimamente tem a certeza de que essa será a última vez!

50. Mesmo quando o sono te domina e o teu corpo está incapaz do que quer que seja sabes de antemão que passarás a noite a ruminar em pensamentos escarafunchosos, porque a realidade das realidades é a insónia!

51. No inverno, quando estás isolado no meio de uma tempestade e num sítio ermo a borrares-te de medo, absorve num só trago essa escabrosa solidão!

52. Estás na fossa e impotente? Acossado, mantém-te nessa onda. De olhar fixo, sem pestanejar. Como um verme baboso prestes a ser definitivamente pisado.

53. De repente pés e mãos estão fora do controlo. Nem as nádegas ou o tronco te servem de apoio. O pânico apodera-se de ti, e acontece o inadiável desmaio!

54. Numa posição díficil, com todas as partes do corpo tensas e prestes a explodir, és capaz de matar qualquer pessoa porque estás profundamente raivoso!

55. Vê como se fosse a última vez que vez alguma coisa um gajo nojento ou um objeto kitsch.

56. Com a boca ligeiramente aberta, mantem-te com a lingua na greta. O cheiro a sexo e a mijo torna o teu acto mais feroz e contudente: GRRRRRRR!!!

57. Deitado na cama ou assente num sofá falta-te força para o que quer que seja ou interesses que te façam mover uma palha. É a insustentável moleza!

58. Num veículo em movimento, sentes o balanço e as guinadas como atentados à tua integridade e aos teus rítmos biológicos. E, sem mais nem menos acontece o vómito!

59. Contemplando um tufão avassalador tudo é a agitação traumatizante!

60. A energia que parece mover o Universo, assim como os teus mais íntimos pensamentos é essencialmente opacidade.

61. Ao tentares dormi e ao tentares manteres-te acordado, conhece-te a ti mesmo como indisposição.

62. Descobre, após o sacrificio de uma vida, que trabalhaste na fórmula errada. Assimé toda a ideologia, religião ou ciência.

63. A obscuridade procura-te para te assimilar com crueldade!

64. Segue depressa os teus piores impulsos. Nada pode parar os erros inevitáveis.

65. Concentra-te no b-u-m desagradável e sente o uivo arrepiante do u.

66. Faz uma careta com desprezo e diz FFF. Experimenta de seguida um PPPP: o esforço!

67. Sente intimamente o cansaço de todos os sentidos.

68. Sempre que vislumbrares alguma coisa bela ou delicada, sê intencionalmente rude.

69. Sensação: Maus pensamentos? Um vazio egoista? A asfixiante intimidade com a ausência de ti mesmo!

70. As ilusões só geram desilusão. As cores enervam. Toda a classificação é uma perca de tempo.

71. Se algum desejo te alegra, examina-o com atenção. Então, sem perder tempo, reprime-o.

72. O desejo e a beleza só existem para disfarçar o horror radical que sustenta as coisas. Queres ser exacto? Dissolve-te no feio.

73. A que é que o desejo pode levar, para além de terriveis consequências materiais? À estupidificação

74. Todas as percepções particulares, todos os momentos mais preciosos, desaparecem imediatamente mal são vislumbrados. Tudo está condenado ao esquecimento e à ignorância.

75. Na melhor das hipóteses não somos criaturas isoladas mas apenas seres pegajosos. O que nos solidariza uns com os outros é essa consistência babosa. Mesmo os belos sentimentos amorosos não passam de uma versão sofisticada de sermos uns colas e carentes.

76. Na violência dos desejos há algo evidente: estás totalmente perturbado!

77. Este universo é uma selva infernal. O único consolo é o de saberes que rápidamente serás devorado.

78. Ó, adepto. Fica sabendo que todo o conhecimento é conhecimento do mal. Prazer e dor são duas versões de algo intrinsecamente maléfico. Sucumbe à necessidade do mal. Torna-te maléfico!

79. O teu corpo é um acessório mediocre da tua má consciência. Como é que podes praticar o que quer que seja sem tortura e ressentimento?

80. Objectos e desejos destrem-se uns aos outros. O pior que te pode acontecer é satisfazeres-te com um objecto ou um desejo. O que é que te pode acontecer depois? Ah! O desinteresse!

81. A depreciação dos objetos é o teu exercício espiritual preferido. Depois de depreciares o mundo tem a ousadia do grande passo, depreciando Deus, o Vazio, a Revolução ou o que quer que seja. E constatarás que nada mais existe para além dessa tirânica depreciação!

82. Imagina que a consciencia alheia é a tua consciência, e que a tua intimidade é comum, desinteressante, escarafunchosa como todas. És o cliché que sempre criticaste, uma subespécie de vulgaridade.

83. Não penses em coisa nenhuma. Será que algo te motiva a agir ou pensar ou outra coisa qualquer. Torna-te insignificante através da falta de vontade!

84. Bem podes acreditar que és relativo, ignorante, contingente, acessório.

85. Poderiamos dizer que fazemos parte de algum elemento que está presente em tudo. Mas nem isso. O único que nos justifica é a repugnância pela universalidade.

86. Mexe-te o menos possível, de tal forma a que o mínimo esforço te seja insuportável. Compreenderás então que sempre foste um atrito!

87. O conhecimento foge de ti a sete pés. Sentes-te fraco, desmoralizado, incapaz e acima de tudo, um fardo para os outros.

88. Alguém te tenta impingir uma treta mística acenando com chavões e metáforas gastas: fecha-lhe a porta imediatamente. Toda a «libertação» mais não é do que o espírito de seita!

89. Tapa os ouvidos e fecha os olhos. Ouves os sons desagradáveis do interior. Agora abre-os. A confusão e gritaria da exterioridade. O único som que te satisfaria seria a surdez!

90. Parece-te maravilhoso? Ainda consegues conceber uma imagem ou experiência maravilhosa? Ò, pobre criatura ingénua, até o maravilhoso se gasta e tem os seus podres!

91. Estás instável. Vagueias sem expectativas. Poderia consolar-te dizendo que há um aqui e um agora. Mas se te concentrares um pouco não consegues agarrar nem um aqui nem um agora. Outra vez o instável!

92. Algo te manobra e te faz funcionar e que tu não és capaz sequer de controlar. Claro. És vampirizado pelo teu inconsciente!

93. Sempre que uma situação difícil e crítica se avizinha não deixes de lado a única coisa que possuis: o nervosismo!

94. Há uma consolação para as situações mais difíceis: tudo se transforma. É claro que se transforma, mas para ainda pior!

95. Olha para um objecto intensamente. Depois retira a tua concentração. E passa a outra coisa qualquer. Sempre desinteressante!

96. A devoção escraviza!

97. Sente que há um objecto atrás de ti. Não sabes o que é, mas ele projecta uma sombra sobre todos os teus actos, por mais indefenivel ou ausente que seja. Passarás a vida a fujir de algo que ignoras. Ah, a insustentável e oprimente perseguição.

98. A impureza dos teus pensamentos e ideias não é mais do que um suburbio da impureza cósmica. Todas as doutrinas estão conspurcadas. Concentra-te na realidade como numa inextricável conspurcação!.

99. A tua consciência que te dá como algo garantido e inevitável neste mundo está decididamente a mais!

100. Sê desigualmente! Trata os estranhos com indulgência! Esquece os amigos! Pensa na desonra que é ter a tua intragável companhia.

101. Quando encontrares alguém na rua gaba-te de todas as proezas que conseguires imaginar, e exagera de tal maneira a que ele se aperceba da mentira e te tente espézinhar psicológicamente.

102. Supõe que buscas algo, embora não saibas bem o quê, e que a tua necessidade de encontrar esse objecto indefinido e indispensável te leva a um extremo estado de baralhação.

103. Desintegra-te com o espaço, insuportávelente, instantaneanente, humilhantemente.

104. Tudo o que tu possas tentar fazer de realmente novo só te diz: inexperiência!

105. Confunde o teu nome com outros nomes, e através desta confusão, o esquecimento!

106. Eu não sou nada. Isto é não é meu. Este aqui nem sequer é este. Ò detestável, nessa conformista constatação repara como és limitado!

107. Esta vaga consciência é o espírito da desorientação que mereces. Deixa de ser.

108. Estás aqui numa esfera de repetição, repetição, repetição. Através da repetição torna-te ainda mais relutante ao que tens sido.

109. Como o cuco destroi ninhadas alheias, sê o estranho destruídor da grande familia a que não pertences tornando cada um dos teus actos num atentado à realidade.

110. Libertação e escravidão não passam de palavras para assustar medricas. Nelas perecem aqueles que nelas acreditam. Este universo apenas reflecte bassamente o que nem merece ser reflectido. Assim como as ondas destroçam as imagens que reflectem assim entende o teu destino como uma escravidão a um amo ignoto.

111. Cada coisa semeia ignorância. Quanto mais percebemos, mais somos cientes da desnecessidade do saber. Cada conhecimento apenas contribui para ampliar o sentimento de desconhecido!

112. Ó chato, neste momento deixa-te de tentativas merdosas, de pretenciosas observações, de suspiros, e mesmo das más intenções – excluí-te!

grande oraculo tretatérico




O supremo cânone da obscuridade - é fáCIL DE CONSULTAR

para gerar números basta utilizar este sítio: http://www.random.org/integers/


se quizer escolher só um número escreva em generate 1, se pretender uma sequência deles escreva o número que quizer de números que pretende


depois escreva os números em



Each integer should have a value between 1 and 81



e consulte o oráculo em baixo

esta é uma versão inventada/adaptada do «grande canone da obscuridade», isto é, do grnde falso canone homeostetico (6=9=0)




1. Centro. O que se mantém em si para si. O é.

2. Circulo completo. Anel. Ciclo. O eterno retorno.

3. Bloqueado. O beco. Sem saída.

4. Barreira. Aporia. Obstáculo. A emergência crítica.

5. Mantendo-se pequeno. Micrologia. Balbuciando. O quase anonimato. A discrição. A emergência minúscula.

6. Contrariedade. O problemático. O adverso. O que vem de outras direcções.

7. Subida. A conquista na hierarquia. A escalada. A inflação.

8. Op-posição. A dialéctica. O movimento refutante. O inimigo.

9.Ramificar. A teia. A rede. O rizoma. O tentacular. A divisibilidade.



10. Distorção. Deformação. O anamorfismo. O desvio metamórfico.

11. Divergência. A bifurcação. A alteração.

12. Juventude. O novo. O primaveril. O borbulhante. A erupção vibrante.

13. Aumentar. O bios. O crescimento.

14. Penetrar. O alvo preciso. A predação.

15. Atingir. O toque. A atenção. A pontaria. O choque.

16. Contacto. A junção dos contornos. O roçar.

17. Retenção. O reticente. A katharsis adiada. A contenção.

18. Aguardar. A armadilha. A passividade estratégica. A busca do ardil certo. A métis.

19. Encarreiramento. O rebanho. O seguidismo. O carreirismo. Os discípulos.

20. Avanço. O passo em frente. O Kouros. O adiantamento. A ousadia.

21. Libertar-se de algo. O desfazer-se. A desapropriação.

22. Resistência. O reverso do «dominante». O poder pela negação. O reactivo. O que contrabalança.

23. Facilidade. Sprezzatura. O des-esforço. O aparentemente natural.

24. Alegria. A efusão. O prazer. A plenitude.

25. Contenção. A prudência. A acção comedida. A estratégia discreta.

26. Empenho. O entusiasmo canalizado. A euforia com finalidade. O Enthousiasmous.

27. Obrigações. Finalidade sem entusiasmo. A rotina. A monotonia.

28. Mudança. O não monótono (a polifonia). A pulsão do tempo.

29. Decisividade. A acção potencial. A tonalização. A afinação.

30. Resolução firme. A mutação forte e consciente. O empurrão. O manifesto.

31. Embalamento. A propensão das coisas. O kairos. A epifania. A stimmung. O clima.

32. Legião (multidão+ exercito). A deslocação numerosa. A invasão. O acampamento. O comício.

33. Estar juntinho. A comunhão. O banquete. A fraternidade. A família.

34. Vizinhança. O que está próximo mas não pertence. O que se segue à comunidade.

35. Manutenção das forças. A energia. A potência. A castidade.

36. Força. O dinâmico. O avassalador.

37. Purificação. O fogo devorador. O revelante. O apocalíptico.

38. Estar-cheio. O auge. A maximização.

39. Ir morar. A ética. A coabitação. O politico.

40. Nomos (o dharma, a lei). A definição. A fórmula. A conduta. O que estipula. O que regra.

41. Resposta (responsabilidade). O estimulo. A pressão fantasmática. O dever. A dádiva.

42. Ir ao encontro. Deslocação. O movimento convergente. A interface.

43. Encontros. Contactos. Ajuntamentos.

44. Caldeirada (mistura, conjunção). Mestiçagem. O paradoxal. O monstruoso. O indefinível. A harmonia de opostos.

45. Grandeza. A doxa. A glória.

46. Alargamento (sublimação). A abertura. A expansão. A possibilitação.

47. Padrão (ritualização). A replicação. A reprodução. A uniformização. O mimetismo. A moda.

48. Ritual. A acção ritmada. A convergência sacrificial. A festa. O concerto.

49. Fuga. A debandada. O desconcertante. O desviante.

50. Vastidão. O sem limites. O desconhecido. E excesso. A desmesura. O colossal.

51. Constância. A regularidade. A normalidade. A confiança.

52. Medida. A proporção. A referência. O exemplo. O instrumento.

53. Eternidade. O não-tempo. O tempo imenso. O instante.

54. Unidade. A redução absortiva. O totalitarismo. A não-diferença. A singularidade.

55. Diminuição. Contração. Empobrecimento. O que se opõe à expansão.

56. Boca fechada. O silêncio. A censura. O emudecimento.

57. Guardamento. O segredo. O enigma. O não expresso. O pacto.

58. Encerramento. A colecta. A logística.



59.Amontoar. O aditivo. O coleccionar. O catalogar.

60. Acumular. A excessiva riqueza. A multiplicidade. A sobra. O por organizar.

61. Embelezamento. A arte. O supérfluo. O ornamento. O belo.

62. Dúvida. A inquirição. A especulação. A distinção critica. A indagação.

63. Contemplar. A passividade estética.O que paira. O borbulhar tranquilo.

64. Imersão. A dissolução. A liquidação.

65. Sublimidade. A evaporação. O etéreo. O nebuloso.

66. Dificuldade. A supressão. O desaparecimento. O desencontro.

67. Escurecimento. Desfocagem. O crepuscular. A aproximação do sombrio.

68. Obscurecimento. O desfazer-se. O ocaso. A negrura.

69. Exaustão. O cansaço. A fraqueza. O esgotamento.

70. Rompimento. A descontinuidade. O estilhaçar. O corte. O golpe.

71. Interrupção. O inacabado. O abismal. O amputado.

72. Dificuldade. Perplexidade. O incapaz.

73. Completamento (conclusão). O perfeito. O frio. O clássico. O depurado.

74. Fechamento. O domiciliário. O aprisionante.

75. Falhanço. O não atingido. O erro. O descontrolado.

76. Agravamento. A dificuldade crescente. A carência.

77. Condescendência. Tolerância. Flexibilidade.

78. No limite. Na margem. Na lâmina. A vanguarda. O stress.

79. Dificuldades. A necessidade. A sobrevivência.

8o.Trabalho. O esforço. A dependência. A domesticação.

81. Alimentação. O nutriente. O que é arrancado à terra.

Thursday, August 02, 2007

VIGYAN BHAIRAVA TANTRA







Esta é uma tradução já antiga de uma tradução que li no verão de 1981, ainda com os meus 18 anos, no livro Zen flesh Zen bones - prometo dar em breve outras traduções de outras traduções deste texto essêncial, assim como a minha paródia negativa.



Shiva, qual é a tua consistência?
O que é que este mundo cheio de maravilhas?
O que é constitui semente?
Quem centra a roda universal?
Qual é a vida para lá das formas invasoras?
Como poderemos entrar nela, para lá do espaço e do tempo, dos nomes e descrições.
Esclarece-me estas dúvidas!




1. Radiante, a revelação pode-se dar numa respiração. Após a inspiração e mesmo antes da expiração. Experimenta esta sua benificência.

2. No momento em que o ar vai ser expirado e também no momento em que vai ser inspirado, em cada desses momentos, toma consciência.

3. Ou ainda, quando o ar inspirado e expirado se fundem, nesses instante ressente a ausência de energia, ressente a presença de energia centrada.

4. Ou quando o ar for totalmente expirado e a respiração pára, ou quando o ar é totalmente inspirado e a respiração pára, durante essa pausa universal, o pequeno eu desvanece-se. Isso só é dificil para o impuro.

5. Considera a tua essencia como raios de luz despertando de chakra a chakra na vértebra, assim desperta a vivência em ti.

6. Ou nos espaços intermédios. Sente-o como relampagos.

7. Deusa, imagina o silabário devanagárico nesses focos de atenção recheados de mel. Primeiro os signos, e a seguir, subtilmente, os sons, e depois como sentimento subtilissimo. Deixando-os de lado, liberta-te.

8. Concentrado no ponto entre as sobrancelhas, deixa que o espirito se adiante aos pensamentos. Deixa que a essência da respiração encha a forma e suba até ao cimo da cabeça, e aí se espalhe como duche em luz.

9. Ou bem, imaginem que as cinco cores das caudas dos pavões são os vossos cinco sentidos, num espaço sem limites. Deixem a sua beleza invadir o espaço. Da mesma forma qualquer ponto num espaço ou sobre um muro. Até que o ponto se dissolve. Então o desejo de outra coisa realizar-se-á.

10. De olhos fechados, escrutina o teu ser profundo. Assim vê a tua própria natureza.

11. Concentra toda a tua atenção sobre o nervo, tão delicado quanto uma fibra de lotus, no centro da coluna vertebral. Assim, sê transformado.

12. Fechando as sete aberturas da cabeça com as tuas mãos, o espaço entre os teus olhos torna-se todo inclusivo.

13. Ao tocar os globos oculares como plumas, a ligeireza entre eles abre para o coração e aí satura o mundo.

14. Banha-te no centro do som, como num som continuo ou numa queda de àgua. Ou, pondo os dedos nas orelhas, escuta o som dos sons.

15. Entoa o som aum devagarinho. Mal o som atinja a plenitude sonora, também tu.

16. No inicio e gradual refinamento do som de cada letra, acorda.

17. Enquanto escutas instrumentos de corda, escuta o som composito central; assim a omnipresença.

18. Entoa um som audível. Depois cada vez menos audível até que o sentes mergulhar nessa silenciosa harmonia.

19. Imagina o espirito dentro e à tua volta até que o mundo inteiro se espiritualize.

20. Adorável Devi, entra na subtil presença que penetra muito mais fundo e para lá da tua forma.

21. Põe a tralha psiquica de uma forma optimamente inexprimivel por baixo, por cima, e no teu coração.

22. Considera qualquer area da tua presente forma como ilimitadamente espaçosa.

23. Sente a tua substancia, ossos, carne, sangue, saturados de prana.

24. Supõe que a tua forma passiva é um quarto vazio com paredes de pele: vazia.

25. Abençoado, assim como os sentidos se absorvem no coração, atinge o centro do lótus.


26. Mente desatenta, mantém-te no meio… até…

27. Sempre que estiveres em actividade verbal toma em atenção os dois sopros, e praticando isto, em alguns dias, renasce.

28. Concentra-te no fogo nascendo através da tua forma a partir dos calcanhares até que o corpo arda até às cinzas, mas não tu.

29. Medita no mundo aparente como ardendo até às cinzas, e torna-te num ser para lá do humano.

30. Sente as excelentes qualidades da creatividade atravessando o teu peito e assumindo configurações delicadas.

31. Com a ajuda do intangivel sopro no centro da fronte, quando este atinje o coração no momento do sono, sê o mestre dos teus sonhos e da própria morte.

32. Tal como as letras fluem subjectivamente para as palavras e as palavras para as frases, e tal como os circulos fluem objectivamente para os mundos e os mundos para principios, descobre finalmente estes convergindo no nosso ser.

33. Ò gracioso, joga! O universo é uma carapaça vazia em que a tua mente se diverte infinitamente.

34. Olha para uma taça sem ver os lados ou o material. Por alguns momentos torna-te ciente.

35. Permanece num local interminavelmente espaçoso, despejado de arvores, montanhas, casas. Assim terminam as pressões mentais.

36. Ò doce, medita no saber e no não saber, no existir e no não existir. Depois deixa-os de lado e sê.

37. Olha carinhosamente para um objecto. Não passes para outro. Aqui, dentro desse mesmo objecto: a benção.

38. Sente o mundo inteiro como uma presença translucida e sempre viva.

39. Com a maxima devoção concentra-te nas duas junções da respiração e conhece o conhecedor.

40. Considera o auge como sendo o teu corpo em extase.

41. Enquanto és acariciada, doce princesa, entra nessas carícias como numa vida que não tenha fim.

42. Fecha as portas dos sentidos às cocegas de uma formiga. Então.

43. No principio do estreitamento sexual, mantem-te inicialmente concentrado no fogo, e, prosseguindo, finaliza desembaraçando-te das brasas.

44. Em tal abraço os sentidos são abanados como folhas. Entra nesse estremecimento.

45. Mesmo recordando a união, sem o abraço: a transformação.

46. Ao ver alegremente um amigo à muito ausente, aprofunda essa alegria.

47. Quando bebendo ou comendo, torna-te no sabor da comida e da bebida, e enche-te.

48. Ah, tu que és a dos olhos em lotus e doce no toque; enquanto cantas, olhas ou saboreias, atenta no que és e descobre o sempre vivente.

49. Onde quer que seja que te satisfaças, seja qual for o acto, actualiza isto.

50. No ponto do sono em que o sono ainda não chegou, e a externa vigilia se dissolve, nesse ponto o ser é revelado.

51. No verão quando se consegue ver claro o céu interminável, entra em tal claridade.

52. Permanece deitado como um cadáver. Enraivecido na cólera, assim fica. Olha sem pestanejar. Ou ainda, aspira e torna-te o aspirado.

53. Sem o suporte dos pés e das mãos senta-te sómente no rabo. Subitamente o centramento.

54. Numa posição confortável, gradualmente penetra numa àrea entre os sovacos para dentro de uma enorme paz.

55. Vê, como se fosse a primeira vez um santo e um objecto vulgar.

56. Com a boca ligeiramente aberta, mantem-te concentrado no meio da lingua. Ou, assim que o sopro vem silenciosamente, sente o som HH.

57. Quando numa cama ou num assento, deixa-te tornar sem peso, para lá do pensamento.

58. Num veiculo em movimento, oscilando ritmicamente, experimenta. Ou num veiculo parado, deixando-te andar à volta em circulos invisiveis.

59. Ao olhar simplesmente o céu azul para além das nuvens: a serenidade.

60. Shakti, vê todo o espaço como se já estivesse absorvido na tua cabeça, brilhando.



61. Acordando, dormindo, sonhando, conhece-te enquanto luz.

62. Na chuva, durante uma noite negra, entra na negritude como na forma das formas.

63. Quando uma noite de chuva sem luar não está presente, fecha os olhos e descobre a escuridão à tua frente. Abrindo os olhos, vê a escuridão. Assim as tuas falhas desaparecem para sempre.

64. Mal tenhas o impulso de fazer qualquer coisa, pára.

65. Concentra-te no som aum sem a ou m.

66. Silenciosamente entoa uma palavra terminando em AH. Depois em HH, sem esforço: a espontaneidade.

67. Sente-te a penetrar em todas as direcções: longe, perto.

68. Perfura alguma parte da tua forma cheia de mel com um alfinete, e, amávelmente, entra na prefuração.

69. Sente: o meu pensamento, essência do eu, orgãos internos: eu.

70. Ilusões decepcionam. Cores circunscrevem. Mesmo os divisiveis são indivisiveis.

71. Quando qualquer desejo chega presta-lhe atenção. Seguidamente larga-o.

72. Antes do desejo e do conhecimento, como poderia dizer o que sou? Toma atenção. Dissolve em beleza.

73. Com a consciencia inteira no principio do desejo, do que há a saber sabe.

74. Oh Shakti, cada percepção especifica é limitada, desaparecendo na Omnipotência.

75. Na verdade as formas são inseparáveis. Inseparáveis são o ser omnipotente e a tua própria forma. Considera cada como produzida por esta consciência.

76. Em estados de extremo desejo permanece imperturbável.

77. Este universo assim chamado assemelha-se a um truque, a um espetaculo. Alegra-te assim ao olhá-lo.

78. Oh bem amado, coloca a atenção em algo que não seja dor nem prazer, mas entre estes.

79. Deita fora o que te agarra ao corpo, concluindo que estou em toda a parte. Quem está em toda a parte é alegre.

80. Objectos e desejos existem tanto em mim como nos outros. Ao aceitá-los traduzam-se.

81. A apreciação dos objectos e assuntos é a mesma para um iluminado e um não-iluminado. O primeiro tem uma vantagem: permanece no dominio pessoal, não perdido nas coisas.

82. Sente a consciencia de cada um como a tua própria. Assim, pondo de lado as preocupações com o próprio, torna-te cada ser.

83. Pensando coisíssima nenhuma, torna ilimitadas as tuas próprias limitações.

84. Crê omniscente, omnipotente, invadinte.

85. Assim como as ondas trazem àgua e o fogo chamas, assim connosco as ondas do mundo.



86. Vagueia até à exaustão e então atira-te para no chão, e neste despejar sê inteiro.

87. Supõe que gradualmente ficas desprovido de força ou conhecimento. No instante de desprovisão, ultrapassa.

88. Escuta enquanto o derradeiro ensinamento mistico é concedido: Olhos parados, sem pestanejar, e subitamente torna-te absolutamente livre.

89. Obliterando as orelhas ao comprimi-las e o ânus contraindo-o, deixa entrar o som dos sons.

90. À beira de um poço fundo olha sem te mexeres para as suas profundezas até que: a maravilha.

91. Onde quer que a tua mente vagueie, interna ou externamente, nesse mesmo lugar, isso.

92. Quando vividamente atento através de um sentido específico, mantém a atenção.

93. No inicio do espirro, durante o susto, na ansiedade, sob um precepício, fugindo na batalha, em extrema curiosidade, no inicio da raiva, no fim da raiva, sê ininterruptamente atento.

94. Deixa que a atenção esteja num local onde vejas acontecimentos passados, e mesmo a tua forma, tendo perdido as caracteristicas presentes, é transformada.

95. Olha para um objecto à tua frente. Depois, lentamente, vai desviando a atenção dele. A seguir, lentamente, desvia o teu pensamento dele. Então.

96. A devoção liberta.

97. Sente um objecto perante ti. Sente a ausência de todos os objectos excepto este. Depois, pondo de lado a sensação do objecto ou da sua ausência, compreende.

98. A pureza dos outros ensinamentos é como impureza para nós. Na verdade nada é puro ou impuro.

99. Esta consciencia existe como cada ser, e nada mais existe.

100. Sê o diferido mesmissimo para um amigo ou um desconhecido, na honra e na desonra.

101. Quando sentes que algo contra alguém ou para alguém desperta, não ponhas a pessoa em questão, mas permanece concentrado.

102. Supõe que contemplas alguém para lá da precepção, de qualquer alcance, para além do não-ser: tu.



103. Entra no espaço, sem suporte, eterno, imóvel.

104. Sempre que a tua atenção se acende, nesse momento preciso, experimenta.

105. Entra no som do teu nome e através desse som em todos os sons.

106. Estou a existir. Isto é meu. Isto é isto. Ò bem amada, nisso conhece a ilimitabilidade.

107. Esta consciencia é o espirito de conduta de cada um. Sê esse.

108. Esta é uma esfera de mudança, mudança, mudança. Através da mudança consuma a mudança.

109. Tal como a galinha cuida dos pintainhos, cuida tu dos conhecimentos particulares, dos actos particulares, na realidade.

110. Uma vez que, na verdade, servidão e liberdade são relativos, estas palavras são para aqueles vivem aterrorizados com o universo. Este universo é um reflexo de pensantes. Tal como podes ver muitos sois na agua a partir de um sol, do mesmo modo vê a servidão e a libertação.

111. Cada coisa é percebida através do conhecimento. O si-próprio brilha no espaço através do conhecimento. Entende o ser-se como conhecedor e conhecido.

112. Bem amada, neste momento deixa que o pensar, o conhecer, o respirar e o formar sejam incluidos.